Arquivo de Maio, 2011

Um em um milhão

Posted: 05/30/2011 by Bruno in Bruno, Contos

 

Fingir.

Muita gente acha feio. Eu costumava achar feio. Eu costumava achar muita coisa feia. As coisas mudam.

Eu poderia te dizer o que vejo, o que sinto. Mas você me chamaria de louco. Talvez eu seja louco.

Pouco me importa o que sai pela sua boca. Eu não estou nem prestando atenção. Prefiro ouvir me cachorro latindo. Por que é que eu não aprendi a fazer dinheiro? Por que é que eu não aprendi a me esconder melhor?

“- Sim senhor, tenho disponibilidade para trabalhar em qualquer horário que seja necessário!”

Nem fodendo que eu venho fazer extra! Você não tem família não?!

“- Claro! eu aguardo sua ligação!”

Essa vaga já é minha mesmo! Eu vejo que você está desesperado. Acha que me conhece depois de trinta minutos de entrevista e um teste idiota? Que piada!

Você vai me escolher, e nem vai saber explicar o porque. Depois de dois meses eu vou sofrer um acidente e ficar “incapaz” de voltar ao trabalho. Vou “entrar na caixa”. Dinheiro garantido por mais alguns meses. E depois, denovo…

Uma vez me ensinaram a mentir, a fingir.  Deste jeito eu sofria menos. Eu escolhia uma cara e vestia.

Mesmo assim, eu chamava muita atenção. As pessoas conseguiam sentir meu brilho por debaixo da máscara.

Depois de muito ponderar, descobri o que fazer: ao invés de vestir uma máscara, deveria retirar a minha.

O povo não tem uma face. O povo não tem personalidade. O povo é só o povo.

Desde então eu tenho estado invisível. Você só me vê se eu quero que você me veja.

Eu não quero que você me veja.

Esqueça esta conversa.

Dica para Malkavianos

Posted: 05/27/2011 by Luciana in Luciana, Malkaviano, Seriados, Vampiro

Louco, Adj.: Afetado por um alto grau de independência intelectual; inconformado com os padrões de pensamento, fala e ação, devido a um profundo estudo de si mesmo.
– Ambrose Bierce, O Dicionário do Diabo

Recomendo True Blood.  Pra quem não conhece é um seriado criada por Alan Ball, baseada na série de livros The Southern Vampire Mysteries da americana Charlaine Harris.

Sinopse: Numa nova era de evolução científica, os vampiros conseguiram deixar de ser monstros lendários para se tornarem cidadãos comuns. Essa mudança, que aconteceu do dia para a noite, deve-se a cientistas japoneses, que inventaram um sangue sintético (chamado True Blood), fazendo com que os humanos deixassem de ser o seu prato principal. Já os humanos ainda não se sentem totalmente seguros convivendo lado a lado com toda a legião de vampiros que está saindo de seus caixões. Ao redor do mundo, cada um escolheu o seu lado a favor ou contra essa revolução, mas numa pequena cidade de Lousiana, as pessoas ainda estão formando a sua opinião.

Mas o que tem de similar com o RPG Vampiro, a máscara?
Muita coisa, inclusive referências para seus personagens.  A rainha no seriado é a princesa da cidade. O xerife no seriado tem a mesma função do xerife no nosso jogo.  Sem falar que tem Ventrue, Toreador, Brujah e tantos outros personagens para se basear.  Inclusive poderes de dominação, rapidez e presença.
Aguardem os próximos posts.
Hoje irei falar sobre um dos melhores personagens da 3ª temporada.

O Franklin (James Frain)
Simplesmente é uma das melhores referências para um Malkaviano.
O personagem é um apaixonado compulsivo e extremista.  Ele ama tanto a personagem Tara, que a faz de refém e ao mesmo tempo manda flores. Bate nela e chora por ela. Além de tudo isso ciumento!!
Excelente atuação de James, com certeza enriqueceu a série.
Dá uma olhada nesse video e entenderá o que quero dizer.

Gente, o que é esse ser mandando SMS? Hilário!
Mais uma vez recomendo a série. A 4ª temporada está chegando na HBO (selo de qualidade).
Já estou ansiosa, um passarinho me contou que teremos necromancia!
Waiting sucks!

Poster da 4ª temporada

Game é cultura!

Posted: 05/26/2011 by Luciana in Cultura, Games, Luciana

A arte é cultura e a cultura, a educação.

Trabalho e estudo muito sobre mercado cultural.
Lembro de discutir a temática de Games como uma ferramenta cultural e educacional (não só para os games como para a moda também!).  Infelizmente, os produtores culturais contemporâneos, não tem o mesmo ponto de vista.

Embora os games não tenham espaço nas leis de incentivo cultural do país, alguns pontos culturais cedem espaço para jogos de RPG e live-action.
O Centro Cultural de São Paulo (próximo ao metrô Vergueiro) e a Biblioteca Viriato Correa (próximo ao metrô Vila Mariana) especializada em literatura fantástica, são excelentes exemplos de como jogo de vivência incentivam a socialização, o auto conhecimento e a diversão.

Game: The Sims - Medieval.

Video-game é arte na era da interatividade. Quantas vezes você já não se surpreendeu com gráficos perfeitos.  E o RPG nada mais é que um jogo que incentiva a criatividade e a leitura.  São ferramentas para uma inclusão social e digital funcionais.  E a dica de hoje é um documentário chamado ” Continue“.
Fala justamente sobre os games e a dificuldade de como foi montar esse projeto.
Vale a pena o clique e ouvir o que esses geeks tem a dizer!

E pra você?  Game é Cultura?

Em comemoração ao dia do Orgulho Nerd, ou Dia da Toalha (e se você não sabe do que se trata, está lendo o blog errado, oras!), vamos listar – sim, um post feito a oito mãos, sem sacanagem – as dezenas de utilidades que uma toalha pode ter no seu próximo live-action:

"é toalha de banho, não toalha de mesa, sua besta!"

  • Enrole na cabeça (estilo – saindo do chuveiro) e vire um Malkaviano;
  • Enrole na cabeça (estilo turbante) e transforme-se imediatamente num Assamita;
  • Prenda na frente do seu rosto horrendo e interprete facilmente um Nosferatu (conforme o caso, empreste a toalha para seu coleguinha e mostre o rosto horrendo, mesmo);
  • Amarre em forma de bandana na cabeça e, voíla, temos um brujah da “gangue das toalhas”;
  • Seu misterioso Tremere vai ficar um charme com um manto místico feito de… toalha;

"Ai, arrasei no estilo neomarginal urbano do Mundo das Trevas! Ser Nosferatu pobre é tendência, sabia?"

  • Já um gangrel pode ir ao live nu, com uma toalha nas costas. (responsabilidade jurídica: não garantimos que você não será preso);
  • A namorada abusou no decote do corset? Envolva a moça na toalha! (não esqueça da desculpa de que está muito frio!);
  • O namorado está se distraindo do jogo observando as pernas daquela toreador? Venda de toalha no cara! (diga que vocês vão fazer um “joguinho” que ele vai se animar :));
  • A toalha pode cobrir a menina  que veio vestida como quem está no Baixo Augusta a trabalho de Terceiro Turno, mas pode ser uma arma de sedução mais devastadora se a jogadora tiver peito e coragem para ir a um evento apenas de toalha – não faça essa cara, sabemos que você já viu o vídeo das ninfetinhas do Anime Friends apenas de toalha, seu pervertido!

"você pode não acreditar, mas elas jogam RPG há mais de 5 anos. Elas sabem o que fazem quando querem chamar a atenção num evento."

  • O cara não tem senso de roleplaying e veio de pantufas? Molhe e dê uma surra  pra ver se ele ficar esperto! – o bom e velho Bullying
  • Artefato de cenário como “Bandeira” de alguma facção, família, reino ou alhures. Lembrando que todos os live-actions acontecem geralmente com uma cenografia pior que de circo do interior.
  • Ainda dentro da temática cenografia realista: o grupo Nosferatu anfitrião do evento usa toalhas para vedar a luz do sol. Os toreadores vão de-li-rar!
  • Quer perder uns pontinhos de status social? Compareça com a toalha ainda suja do sangue do lanchinho que seu descuidado caitiff fez antes de chegar à reunião.

Isso é groselha, seu Príncipe!

  • Um bom ravnos faz cerca de cento e vinte e três números de ilusionismo diferentes com uma simples… toalha!
  • Seu Narrador é incrível e você entrou demais no clima do Mundo das Trevas? Seque o suor com sua toalha!
  • Tá sem lugar pra se trocar? Peça pro amiguinho segurar a toalha na sua frente!
  • Uma toalha serve também para cobrir a mesa de salgadinhos, Doritos e demais quitutes que só deverão ser consumidos DEPOIS do live – o que os olhos não veem, a boca não prova!

Uma toalha branca + 2 buracos = Wraith

  • Se esconda debaixo da toalha para simular invisibilidade (bem melhor que ofuscação);
  •  Jogue por cima da cabeça e “tchã-rã”, teleporte instantâneo:
  •  Taque fogo na toalha: bola de fogo! (responsabilidade jurídica: nenhuma, não temos culpa se você repete qualquer idiotice que lê na internet)

    "Mantenha sua toalha sempre limpa. Ela não é passaporte pra ter carimbo de origem"

Feliz dia do orgulho nerd pra vocês! Não entre em pânico!

Ah, o Jogo de Interpretação de Papéis. O teatro da vida não tão real. É a hora e a vez onde todo mundo resolve desincorporar-se, deixar de ser aquela pessoa que paga contas, que pega o ônibus, que fuma cigarros nos lugares preestabelecidos por lei para serem malvados, fuderosos, gostosos e maldosos seres da noite sedentos por sangue, volúpia, sexo e poder. Mais ou menos como o Clube da Luta, só que sem aquela coisa toda de troca de fluídos obrigatória que envolve a atracação com roupa (o que, na grande maioria dos casos, não impende uma atracação com ou sem roupa e troca de fluídos depois do evento).

Puta mundo injusto, meo! Nunca me chamaram para uma suruba pós-live!

Mas no mundo dos live-actions, encontros de RPG e demais convenções sociais onde podemos colocar roupa de inverno em pleno verão paulistano, a duas coisas nos habituamos: à regra (sempre observada, quase sempre cumprida) de abstinência alcoólica e sexual (embora em ambos os casos a visão de uma mocinha de corset, um galã com cara de predador sexual, ou de uma garrafa de Eisenbahn nos abre a saliva) e a batalha interna entre estar dentro do personagem e o senso comum de que você tem mais de 22 anos e está representando com a sinceridade e a espontaneidade de quando você interpretou uma árvore na peça sobre laticínios no Pré-Escolar.

Nessas horas, nesse nosso grupo de amigos nerds de improviso controlado, acaba surgindo sempre o mesmo caso inconveniente: o overacting. O Toreador com um pé no almodovarianismo e o outro também, o Ventrue “Sou playboy, filhinho de papai, me afundo nessa bosta até não poder mais”, o Malkaviano de Pantufas (que ainda vai ganhar um estudo na Universidade de Cornell apenas para este caso), o Tremere Chessmaster e o Brujah PunkRockerHardcoreRevoltadoRageAgainstTheMachine. Estes arquétipos, embora válidos e constem dentro das linhas gerais de descrição em todos os livros, são apenas uma caricatura dos personagens em um ambiente vivo como acontece em jogos de verdade.

O risco de fazer um overacting é, em um primeiro instante, você ficar marcado como o jogador canastrão que não leu nada mais que um resumão daqueles que se vendem em banca para concursos, o que te transforma em um maldito jogador casual (e ninguém gosta de malditos casuais numa mesa de longo prazo). Segundo ponto: por você fazer um personagem tão bidimensional e descomplicado, a sua longevidade no jogo pode diminuir drasticamente, uma vez que você vai virar um bucha de canhão porque não dá pra confiar em alguém que possui inimigos diretos e declarados.

Mas não é o fim do mundo. É possível evitar a galhofagem e o overacting que tanto broxam jogadores, mestres e possíveis jogadores a longo prazo. Cara, meu primeiro conselho é: relaxa. Você não é o Nicolas Cage. Só por isso abra as mãos, estenda-as aos céus e agradeça sua sorte. Você não está tendo que provar nada pra ninguém, não está lá ganhando um centavo por sua participação. Em todo o caso: você não está em um grupo amador de teatro (e nada o impede que procure um caso goste de interpretar um papel). Você está lá apenas para responder às respostas do seu personagem. Se alguém pisa no seu pé, te tira do sério, haja como agiria o personagem, pura e simplesmente. Já dizia Freddie Mercury: “Surrender your ego, be free – be free to yourself”.

O segundo conselho fica para os narradores, que se fundamenta em 3 coisas: ambientação, ambientação, e ambientação. Certo – você conseguiu a casa, conseguiu os jogadores, conseguiu uma história até que decente, que geralmente envolve mitos históricos e folclóricos de seu CEP. Agora, meu filho, é a parte mais difícil: faça com que seus jogadores entrem no espírito da coisa (sempre de maneira saudável, nunca canso de frisar. Não queremos processos ou oficiais de Justiça na sua porta, queremos?): coloque uma música adequada ao ambiente e ao momento da história, conte uma história, reúna o povo em uma roda e dê uma de Joel Santana, isso fica a seu critério. Mas, pelo amor de Gary Gygax – COLOQUE SEUS JOGADORES DENTRO DO SEU JOGO!

"Ai uanti de prince vampáiri in the tópi ofi de esté"

De todas as boas experiências em live-action que tive nesses anos nesta indústria vital, sempre respeitei duas coisas: Narradores que se esforçavam para colocar o jogo no clima certo a ponto de nascerem cacoetes e idéias fixas depois das sessões, e jogadores que paravam uma cena, olhavam direto nos olhos e diziam “Role play, mermão. Role play!”. Isso é que dá tesão para continuar o jogo: é a possibilidade de encontrar um bom roteiro e poder crescer com ele: pronto, você já está um passo à frente do Nicolas Cage. Até hoje, graças às divindades do D10, não encontrei um jogo onde o pessoal estivesse interpretando como se fosse num filme do Ed Wood por mais de um live-action e sobrevivesse.

Saiba que, sim, é um costume entre narradores, Mestres de Jogo e alhures darem pontos extras para interpretação em eventos assim. Sinta o personagem, suas ações cinco minutos antes de cada live – como ele acordou, como se vestiu, o que pensava no caminho ao local de reunião. Mas não erre na mão quando resolver incorporar aquele seu personagem atormentado e meio demente e ficar babando no pescoço daquela menina de 19 anos que está jogando seu primeiro live sem ter hora pra voltar. Não confunda boa atuação com stalking ou overacting, caso contrário você corre o risco de ser educadamente convidado a ir fornicar um cachorro do outro lado da cidade da próxima vez que perguntar “quando vai ter live?”.

Ou pior - você pode acabar como esse cara.

Ninguém perde?

Posted: 05/24/2011 by Aurea Gil in Kathy, Vampiro
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Quer fazer amiguinhos? Vai brincar de roda!

Na teoria, quando alguém chega com a célebre pergunta “afinal, que é esse negócio de RPG mesmo?”, rola aquela linda explicação sobre “um jogo onde ninguém ganha, ninguém perde”, “jogo cooperativo”, “trabalha-se em conjunto”, e coisa e tal.

Sabem o que eu acho disso? BA-LE-LA! Vem jogar vampiro, vem!? Vem ver de pertinho o jogo onde ninguém perde e são todos amiguinhos. Duas puxadas de tapete depois você estará considerando retornar ao grupo de tranca da paróquia do bairro, esse sim bastante solidário.

Na verdade, meu caro amiguinho, não precisa sair correndo assustado assim tão rapidamente. Num jogo voltado para o público adulto, com temática que inclui disputas por poder e por status, intrigas sociais e muita, muita guerra de influências, é natural que seu amigo em “off”, que em “on” interpreta o pior de seus inimigos sacanas, não pense duas vezes antes de lhe sabotar sem ao menos retirar o sorriso sarcástico do rosto.

Fazer o que? Não há aquela outra máxima do mundo RPGístico “é tudo um jogo”? Abrace a causa, e corra para se vingar do maldito traidor, ops, do seu amigão, na próxima oportunidade, beibe. Jogo cooperativo é o escambau! 🙂

Imagem daqui

Pedro e as pedras

Posted: 05/23/2011 by Bruno in Bruno, Contos

“Pedro, o que é aquilo?” sussurrou a pequena criatura, enquanto olhava por cima do muro.
“Só pode ser vampiro, Juliano. Só pode!” respondeu o maiorzinho.
Juliano deu uma lambida no pirulito estilo “turma do Chaves”, coçou o nariz, coçou o olho, e então disse: “Mas como é que você sabe?”
“Essa é fácil Juliano. Veja bem a cara de boboca dele, encostado no muro, achando que ninguém está vendo. Só pode ser vampiro.”
“Todo vampiro tem cara de boboca?” perguntou o pequeno, com cara de espanto.
“Tem sim, todos eles” disse Pedro, enquanto abaixava para pegar uma pedrinha no chão. “Olha só”.

Um transeunte passa desavisado pela rua. Quando menos se espera, uma pedra acerta em cheio alguma coisa que deveria ser a parede. Um homem aparece “do nada” e solta um grito abafado de dor, com as mãos sobre o rosto. O transeunte desavisado dá um salto, assustado, e se põe a correr.

Os dois garotos se abaixam e começam a rir. Eles tentam segurar, mas não conseguem, é mais forte que eles. O risos se tornam gargalhadas. Em questão de segundos o dito vampiro pula o muro e está sobre eles. Sua testa está sangrando. Enfurecido, ele fecha o punho direito e desfere um golpe contra as crianças…
…e atinge o ar.

“Chega de assistir televisão Juliano, vamos dormir”
“Mas Pedro, agora que tá legal!”
“Já está tarde. Eu tenho que cuidar de você.”
Juliano faz um bico de choro.
Pedro se irrita e exclama: “Ontem foi lobisomem, hoje é vampiro. E amanhã?! Eu tenho que tacar pedra em quem pra você dormir amanhã?”
“Um E.T.!”
Pedro sorri: “Tá bom, agora vai pra sua cama!”
Juliano vai correndo feliz para o quarto.

Na penumbra quase não se vê que esta casa é diferente. Talvez de manhã seja possível ver o que escondem as formas estranhas. Mas hoje é hora de dormir. Pedro vai até a televisão.
Na tela, um homem estranho com a testa sangrando segura um pirulito.
“Boboca!” diz Pedro, sorrindo, antes de desligar a televisão…