Um pedaço de você

Posted: 06/07/2011 by Aurea Gil in Kathy, Uncategorized
Etiquetas:

Auto-explicativo

“Escrevo porque sou um desesperado e estou cansado, não suporto mais a rotina de me ser e se não fosse a sempre novidade que é escrever, eu me morreria simbolicamente todos os dias.” (Clarice Lispector – A hora da estrela)

Confesso: a minha parte preferida em todo o processo do RPG é sempre a de criar personagens. Novos personagens, novas idéias, novas histórias. Nem sempre meus personagens podem ter a honra de interagir com o mundo, nem sempre consigo colocá-los à prova num jogo verdadeiro, interagindo com outros “eus” de outros jogadores, mas ainda assim esse é o momento em que eu mais me divirto.

E não falo só da planilha, não. Parte que também gosto muito, admito, mas falo mesmo de descobrir e construir aquela pessoa inteira, descobrir seus detalhes e seus “sussurros”. Afinal, citando aqui mais uma vez Clarice: “Os fatos são sonoros, mas entre os fatos há um sussurro. É o sussurro que me impressiona.”

sem background não dá

Traduzo: um background bem construído não significa nada para mim se ali não consigo enxergar vida. Uma ficha toda combada e funcional para mim nada diz se não encontro motivação para a personagem existir. Para mim essa vida está nos sussurros, nesses pequenos detalhes que fazem daquela pessoa alguém único, diferente dos demais.

Já tentei, sim, jogar sem me preocupar com background, num desses hack and slash básicos, mas quando chegou a minha bendita vez de abrir a boca (e acredite, essa hora sempre chega, mesmo no mais despretencioso dos jogos!), eu fiquei completamente muda! Não saía nada! Como falar algo sem saber quem era aquela pessoa que falava? Para mim não fazia o menor sentido!

Outra coisa que sempre me acontece, e que acho natural, embora alguns narradores não gostem, é a personagem ir “mudando” conforme o tempo passa. Uma personagem parece perfeita na teoria, mas quando ela entra em ação, percebe-se que certos pontos não funcionam, e desenvolve-se outros, e então a saída é mudar, moldar, modificar, aparar arestas, e assim como qualquer pessoa comum, em eterno aprendizado na vida, emocionalmente, inclusive, essa pessoa que a gente cria também se modifica aos poucos.

Por último, e não menos importante, até hoje jamais criei uma personagem que não tivesse um pouco de mim. Na verdade, acho que até o menos criativo jogador, aquele que enxerga o personagem como um conglomerado de atributos e bolinhas, fala muito sobre si mesmo quando escolhe interpretar esse tipo de personagem.

Encerro com mais uma frase de Clarice de “A Hora da Estrela”, onde Rodrigo S. M. define sua personagem Macabéa: “Mas eu, que não chego a ser ela, sinto que vivo para ela.”

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s