Double Shot de Sexta-Feira!

Posted: 06/17/2011 by El Gordo in André, Cultura, Curiosidades, Games, Luciana

E aí, firmezinha? Entonces, eu sou uma marmota e eu estava com esse texto tamborilando na minha cabeça, mas os fatos na última semana não deixaram que eu conseguisse subir um assunto bacana no dia certo. Por isso, eu estou entrando com esse texto com quase uma semana e meia de atraso – não acontecerá de novo. E com um bônus, cobrindo a falha da minha boa amiga Luciana.

Parte 1: “E um dia, os seus filhos, Kal-El!”

Sim, isso é possível.

Ah, os prazeres da maternidade. A obrigação genética de passar nossa carga para a próxima geração, tentar fazer com que eles não cometam os mesmos erros que cometemos no passado. Como comprar livros pirateados e jogar 3D&T. Sempre nos perguntamos depois que vemos um pimpolho nos braços de um casal nerd como será o rebento nas próximas gerações: se ele vai ser um Nerd de Quarta Geração Bazingueiro, se ele será uma ostra social, ou, enojado com a imagem dos pais se vestindo de Steampunk com quase quarenta anos nas costas, ele vai gastar toda a sua mesada com academia, pó, birita e prostitutas do baixíssimo meretrício. Sempre considerou-se uma aposta arriscada ser um nerd e tentar criar um filho aos moldes clássicos do estereótipo.

A pergunta era uma sombra de dúvida não apenas nos rumos que teriam os aspiras da Nova Geração de roladores de dados e preenchedores de fichas quilométricas, porque para ser sincero, era mais fácil descobrir a fórmula do refrigerante cujo nome eu não digo que ver um casal nerd procriar e continuar junto e fazer com que seus genes conseguissem passar para a frente. Os mais puristas acreditam que a nerdice e o gosto pelo RPG são adquiridos com o tempo, uma condição social que impele os que ficam pra trás na corrida pelas menininhas ou menininhos (dependendo do sexo ou do “caminho da alma”) a se reunirem e afogarem suas tristezas e mazelas sociais com dados, salgadinhos, cigarros roubados da bolsa de mamã e sonhos idílicos onde eles são seres poderosos e/ou atormentados bagarai.

Entretanto, graças aos efeitos da Sociedade Civil Organizada do Anel em busca de um lugar ao sol desta minoria que aceita todas as outras maiorias, vem se notando grandes esforços para transformar a nerdice e a paixão por esse nosso pequeno esporte em uma coisa mais natural e passível de se transformar em um instrumento familiar. RPG FAMILIAR – quando você, seu velho safado que vivia de livros fotocopiados e revistas mensais com aventuras half-baked e resenhas mais porcas que as que eu escrevo hoje, poderia imaginar que ouviria essas duas palavras na mesma sentença?

Pois essa desgrama acontece mais do que você imagina. Graças aos bons velhotes das mesas, pioneiros na nerdice que cresceram e conseguiram seu lugar ao Sol em setores estratégicos (mwa-ha-ha-ha), conseguimos colocar o bom e velho Jogo de Interpretação de Papeis em um patamar pedagógico, didático, divertido. Eu me lembro de uma aventura one-shot em uma aula de história por uma professora substituta gorda como o “Comic Book Store Man” sobre os exploradores do sertão, isso na oitava série, no ano longínquo de 199e-não-te-interessa. E acreditem quando eu digo, meninos e meninas que estão lendo isso graças ao Google – com D20 e GURPS você pode fazer um jogo de RPG educacional de QUALQUER COISA. Inclusive de Nelson Rodrigues e Rubem Fonseca. Fica a dica.

Chaotic Neutral na veia e nos livros escolares. Não em todos, mas em alguns.

A despeito de toda a agenda antinerd que sempre de vez em quando escutamos – principalmente os casos desses malditos hardcore-gamers que brincam de Ritual em um cemitério com gentinha de verdadinha com adaguinha de verdadinha – estamos deixando um bom rastro para os nossos pimpolhos. Como experiência pessoal, os poucos nerds que conheço que possuem rebentos estão doutrinando os pequenos na doutrina de rolagem de dados. E também em não estranhar quando virem os pais saindo fantasiados de casa para um evento ou live-action.

Além do mais, se seus pais te toleram nerd jogador de RPG – de mesa, de videogame ou qualquer outro jeito que inventem nas próximas décadas – fica muito mais fácil o garoto crescer e ter vontade de ser o que quiser. Engenheiro, arquiteto, psicólogo, um Toreador Antitribu, Ranger da Aliança, etc…

Melhor ter uma foto vestido de Yoda no passado que uma foto com a camisa do Palmeiras. Acredite-me.

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Parte 2: Jack Flack Sempre Escapa!

Bom, a pedidos da Luciana – que está “assoberbada de trabalho” (como diria a vadia malcomida da minha primeira patroa no Jornalismo, em um jornalzinho semanário de Jacareí) com seus afazeres em assuntos que não são da minha conta, eu resolvi tapar esse pequeno buraco tentando emular um pouco do estilo da moça, sempre mais ligada na questão cultural e afins.

Bom, eu curto cinema. Filmes, curtas, trailers, trilhas sonoras, o que você quiser – eu só não fiz uma faculdade relacionada porque minhas mãos tremem com uma câmera e achava que isso daria menos dinheiro que jornalismo (isso é possível?). E, como todo garoto da geração dos filmes da tarde, eu fui vendo um monte de filmes antigos que tinham alguma ligação com o mundo nerd. Poderia falar da trilogia De Volta para o Futuro, poderia falar da fantasia medieval de “O Feitiço de Áquila” (que poderia ser facilmente o kickstart de qualquer aventura de Dungeons & Dragons antiga), “Os Garotos Perdidos” e seu retrato de vampiros que mordem pescoços femininos, e não fronhas, vivendo na excelência de uma imortalidade jovem em Santa Monic…. Santa Carla (no primeiro corte, onde aparecia um pezinho de maconha na casa do velho, que depois foi editado para tornar o filme mais familiar no horário da tarde), mas não. Temos que ir mais fundo.

“Os Heróis Não Tem Idade” (Cloak & Dagger, EUA, 1984) é um desses filmes despretensiosos, feitos quase que numa prensa hidráulica, naqueles dias que se procurava fazer uma ponte entre crianças e aventuras em um ambiente ao mesmo tempo controlado e desafiador. O resumo da história: um garoto Forever Alone recebe de um moribundo um cartucho de videogame com planos secretos embutidos, e começa a ser perseguido por espiões interessados no McGuffin para Atari 5200. O garoto, desacreditado por todos como um sonhador e mentiroso contumaz, conta apenas com uma pistola d’água, uma bola de softball e a inspiração de um amigo imaginário que é um espião de um jogo de RPG de mesa e vídeo: Jack Flack, o espião.

Esse filme não passa na Regra dos Quinze Anos (a que qualquer filme que era bom na sua infância fica uma merda depois do 15º aniversário) por uma série de fatores: desprezar um garoto dizendo que tem segredos de Estado no auge da Guerra Fria do Reagan X Andropov é ignorar demais a paranóia que vivia a nação americana naqueles dias de Rambo e Rocky X Drago, os espiões que não conseguem dar conta de uma criança em fuga não conseguiriam nem mesmo um estágio na ABIN (que descobriu de terceiros certa vez que Osama Bin Laden deu uma palestra em Cidade do Leste em 1996, antes de ter fama internacional), os personagens são caricatos e o escambau. O filme, em suma, não é o primor de roteiro e direção. Mas ele tem uma coisa a mais, além do tempero da infância.

Pela primeira vez fora do circuito Trilamb de esculacho generalizado de nerds e seus costumes podemos ter a aplicação de conceitos de RPG em um efeito válido e interessante, tanto como efeito de cenário como para narrativa. Na primeira cena vemos uma sequência de ação onde Jack Flack escapa de uma série de espiões com piruetas e papagaiadas dignas de um espião faz-tudo. Inclusive de dois D-20 que rolam em sua direção. Embora mostrem na cena seguinte um gordo-nerd-padrão trabalhando em um computador, esse nosso passatempo favorito não é apenas uma diversão para gordos suados trancados em um quarto escuro bebendo e suando aventuras medievais. É uma coisa que pode ajudar nossos pimpolhos a conseguirem ter mais cérebro.

Alguém está vendo um óculos fundo-de-garrafa ou um protetor de canetas de bolso nesse jovem mancebo?

O problema é que, tal qual 90% da população brasileira, só fui conhecer RPG com as notícias bizarras da televisão. Mas ainda sim foi uma boa maneira de apresentar “O esporte” para o pessoal.

Pra quem viu, relembre. Pra quem não viu, veja.

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