O lobo-guará

Posted: 06/20/2011 by Bruno in Bruno, Contos, Vampiro

Num dia qualquer, há algum tempo atrás…

Peterson vem dirigindo seu velho guincho pela estrada. A vergonha e a culpa lhe consomem por dentro…

“Bugre: Veja bem Peterson, você precisa encontrar o animal dentro de você. Ele está aí, em algum lugar, você só não encontrou ainda…
Peterson: Não sei Bugre, eu estou um pouco confuso. Eu só consigo pensar em cachorros, o tempo todo, mas eu não quero ser um cachorro!
Bugre: É aí que você está se complicando. Você está se negando, não está deixando a sua natureza fluir em você…”

Peterson esbraveja ao volante:
– Mas que bela bosta de animal eu sou, que bela bosta!

Ele não consegue pensar em voltar para a cidade depois de tudo o que aconteceu…

“Cinzas. Tudo o que sobrou de seu senhor foram cinzas. Ele olha desconsolado para o chão. Agachado, ele revira o pó e encontra o pingente que Bugre carregava junto ao peito. Mas o pingente estava quebrado. Sentindo-se tão quebrado quanto o pingente, Peterson passa o cordão em volta do pescoço. O pingente serviria para lembrar o quão frágil um vampiro é. Sem se arriscar. A partir deste dia seria assim a não-vida.
Ele se afasta, enquanto seu peito, que carrega um coração que não bate, transborda de vergonha por ter fugido na hora da batalha. Peterson liga o guincho e parte, sem destino certo…”

Vergonha, culpa, vergonha, culpa, vergonha, culpa, medo, vergonha, culpa, medo, raiva, raiva, raiva, raiva…
A estrada vai ficando vermelha, vermelha, vermelha. A consciência some…
…e volta repentinamente acompanhada do som de um grunhido de dor.
Peterson freia o carro e joga para o acostamento.

Atordoado ele sai do guincho. Ao olhar para a estrada, vê o que parece ser um cachorro, jogado, gritando de dor.

Peterson se aproxima do animal. Agora, mais de perto, ele vê que se trata de um lobo-guará. Animal solitário, que ele só conhecia através de livros.

Não há como salvar o animal. Lágrimas de sangue correm pelo seu rosto, enquanto ele pede desculpa.

Ele se abaixa e dá ao animal o beijo que acalma. O beijo que mata. Enquanto o animal recebe a paz e começa a morrer, Peterson vai morrendo junto…

Ao fim do processo, Peterson toma o animal nos braços e o carrega para dentro do matagal ao lado da estrada. Tenta acomodar a carcaça sem vida de forma confortável, e passa a mão em sua cabeça, para tentar aliviar a dor.

Triste, com dor, sozinho. O lobo-guará era Peterson, e Peterson era o lobo-guará. Ele tira do bolso um canivete suíço e corta um pouco do pêlo do animal para carregar consigo. Este lobo-guará não seria esquecido. Ele viveria em Peterson.

Quando caiu em si, percebeu que estava correndo em quatro patas. E nada mais importava. E por mais pessoas que possam estar à sua volta, ele sempre estará sozinho, correndo…

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Comentários
  1. kathy diz:

    O final é tão triste… :((
    sempre sozinho, sempre sozinho….

  2. Valeria diz:

    Concordo.

  3. Valeria diz:

    Olha , achei interessante, mas alguem sabe como salvar o lobo guará de extinção?

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