Livro primeiro – capítulo 1*

Posted: 06/21/2011 by Aurea Gil in Contos, Kathy, Malkaviano, Personagens

Que trata da condição e exercício da inigualável artista circense Cassandra Napolina*
 
Num lugar do interior de São Paulo, de cujo nome não quero lembrar-me, vivia uma menina.*
 
Chamava-se Cassandra Napolina Gonzales.
 
Era franzina, delicada, tinha orelhas de abano, e seus longos cabelos negros desciam até a cintura.
 
Estava prestes a completar 6 anos quando se deu a tragédia: o último vôo fatal de sua mãe, Alana Gonzales, conhecida no mundo circense como “a inacreditável mulher pássaro”.
 
Após o inesperado acidente o pai de Cassandra, Carlos Gonzales, um hábil acrobata e não assim tão hábil trambiqueiro, decidiu que finalmente era o momento de sua filha única ser iniciada no estudo das artes do circo.
 
Era necessário, quase urgente, encontrar substituta à altura para a falecida mulher pássaro, já que essa era a principal atração da desfalcada trupe familiar cujos rendimentos conseguiam mensalmente sustentar todo o pequeno circo Gonzales e acalmar a fúria dos dezenas de agiotas para quem Carlos devia.
 
Se parecia impossível encontrar substituta para a mulher pássaro artista, para o papel de esposa Carlos não pareceu ter dificuldades na troca.
 
Poucos dias após o fatal incidente, o lugar vago no trailer do pai de Cassandra já era ocupado por Mademoiselle Gabrielle, a fantástica contorcionista, que fazia diariamente demonstrações de suas fenomenais habilidades corpóreas em apresentações exclusivas para o acrobata.
 
Enquanto aguardava os intensos ensaios de seu pai com a madrasta, que invariavelmente aconteciam dentro do trailer do dono do circo e a portas fechadas – para que se mantivesse o sigilo dos números – conforme explicava Juan, Cassandra treinava o equilíbrio na corda bamba, incansavelmente.
 
Era sempre observada de perto por Sancho*, seu fiel amigo, um chimpanzé adulto de olhos expressivos que costumava vestir roupas de gente e um chapéu.
 
A altura da corda subia a cada dia, assim com aumentavam também as horas de ensaio de Cassandra, que não encontrava mais tempo para brincadeiras de criança.
 
Um forte ” Andale, andale!!” Acompanhado de palmas vigorosas era o que o pai de Cassandra enérgicamente dizia nos poucos momentos em que estava presente, incentivando-a a fazer o trajeto na corda cada vez mais rápido.
 
Apesar do evidente cansaço dos treinos, enquanto se equilibrava no alto de sua corda, Cassandra transformava seu mundo habitualmente cinza em colorido.
 
Ao se apresentar, imaginava-se bem maquiada e vestida, com os cabelos presos ao alto num coque e, inexplicavelmente, sem as orelhas de abano.
 
A lona velha e remendada transformava-se em um picadeiro luxuoso.
 
O pêlo de Sancho brilhava reluzante, e a platéia geralmente sonolenta e entediada a aplaudia com entusiasmo.
 
Havia música, brilho, luzes, cheiro de pipoca e todos a admiravam.
 
Os cartazes anunciavam o show da “inigualável Cassandra”.
 
O circo era seu mundo mágico, e ela adorava cada vez mais o que fazia.
 
Assim, perdida em suas brincadeiras e delírios, a pobre menina foi perdendo o juízo.
 
Pelo menos era o que dizia seu pai “perdeu lo juízo, la pobrecita”.
 
Sua imaginação foi tomada por tudo o que sonhava – magias, truques, brilhos, números incríveis, aplausos do respeitável público, desafios, amores e disparates inacreditáveis.
 
Foi assim que acudiu-lhe a mais estranha idéia , que jamais ocorrera a outra louca nesse mundo.*
 
Pareceu-lhe conveniente criar seu próprio mundo, seu próprio circo.*
 
E assim foi, pelo menos e a princípio, somente dentro de sua mente.
 
Quando Mademoiselle Gabrielle, a fantástica contorcionista, descobriu que o hábil Carlos andava ensaiando novos números com a adorável Juanita, a ajudante do mágico, e contratou o experiente atirador de facas Jaime para acidentalmente errar seu alvo e acertar o coração adúltero do dono do circo Gonzales.
 
Então, de repente…
 
Plim!
 
Como num passe de mágica, sua ilusão virou realidade, e aos 16 anos, por mérito e direito, a inigualável Cassandra tornou-se a única herdeira e proprietária do Gran Circo Gonzales. E aqui começa outra história.
 
* Adaptações com referências ao livro Dom Quixote de La Mancha
 
(Trecho de background de personagem utilizada em crônica de Vampiro a Máscara)
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