A vida é dura – um teaser.

Posted: 07/06/2011 by El Gordo in André, Contos, Personagens, Vampiro

Alfredo lavou a cara com a água cristalina do lavabo de pedra italiana pouco depois de acordar. Algo que ao mesmo tempo evocava tempos antigos e um tempo que jamais viveu. Não era sua primeira incursão no meio de tamanha granfinagem, mas ele sabia que não teria um tempo tranqüilo.

Correu para o salão abarrotado de VIPs e seguranças para acompanhar com ansiedade os desdobramentos da Conspiração. Sabia que aquele tiro era de longa distância, era um plano audacioso ao ponto do ridículo e dependeria mais da sorte que Deus reservaria naquela noite que por um método científico, prático, lógico. Mas sabia muito bem que naquele seu mundo, com as coisas que tinha visto em todos aqueles anos, a lógica era uma piada e dois mais dois nunca poderia ser quatro.

Entretanto, no meio do tiroteio e das câmeras de tevê esquadrinhando todos os cantos de São Paulo na noite do mais violento ataque orquestrado por uma facção criminosa da história recente da cidade, as coisas não estavam indo bem. No mapa de batalha, as linhas vermelhas estavam sobrepujando as azuis em todos os pontos-chave originais, e avançavam. Avançavam com uma velocidade assombrosa. Aterrorizante. Pensou que o prédio de luxo, tradicional do centro da cidade, poderia ser sua Alexanderplatz, sua última linha de defesa antes do inexorável fim que aguarda a todos. Começou a pensar no que poderia acontecer se o Turco chegasse até aquele andar e encontrasse o Buffet dos sonhos. Todas as Cabeças Coroadas do Submundo de São Paulo estavam em um único lugar, prontos para serem colhidos como frutas maduras do pé. Pensou se não seria aquele o momento em que ele se jogaria nos braços da morte para seguir a tradição da família – sacrifícios pela causa de igualdade e de um governo justo no inferno cotidiano. Tal como ocorrera com seu mentor.

Naquele instante, no terraço do prédio imponente, longe dos olhos dos seguranças e de qualquer bom-senso, Alfredo sentiu medo. “Ligue para o pessoal do Alto Escalão. Estamos perdendo. Precisamos de ajuda. Mande todo mundo pra cá. Já não há mais condições”, ordenou a seu escudeiro em um canto escuro da cidade, isolado de todo o tormento que assolava a capital paulista.

E a vida, com suas piadas e idiossincrasias, veio como uma punchline de uma piada de salão na volta. “Nós vencemos, Alfredo. Os turcos estão recuando. Tão cedo não teremos problemas com eles”, disse o velho com sotaque italiano e com pouca disposição a se prolongar.

“A primeira lição neste jogo é ser paciente, Alfredo. Acalme-se. Deixe as linhas se definirem”, o seu mentor o ensinou, antes mesmo do tempo do lampião a gás ser um sonho de consumo na paulicéia. Não haveria perdão, não haveria rede de segurança, ninguém ficaria no caminho da bala para salvar seu couro. Desde aquela fatídica noite, ele nunca se sentiu tão sozinho. Sentiu o ódio e o desejo do Italiano em destruir seu último fôlego de vida se materializar no ar, enquanto seu velho amigo na Cidade Universitária pedia uma mera carona para casa. “Acabaste de perder um bispo em sua estratégia, Alfredo”, falou o velho Dario com sua voz lacônica, como se ensinasse uma criança a andar de bicicleta.

E com a solidão dos loucos e dos suicidas, longe de tudo que lhe era familiar e seguro, Alfredo se deixou cair para dentro do mausoléu dos Enforcados. E para dentro de sua própria ruína.

************

“Siga com o plano”. O som seco da pólvora e o som chocho dos punhos golpeando o crânio ressoavam na nave da igreja, em plena noite de silêncio, temor e morte. Os óculos, símbolo oficioso de seu caráter pacifista e conciliador, a outrora marca do mediador, voaram da face de Alfredo com o ódio do punho que trabalhava seu recém-feito inimigo como um bate-estacas de construção finca os pilares de um arranha-céu. A cada descida do braço, como um fole que alimenta o braseiro, algo crescia.

A mentira era parte de seu trabalho e de seu meio de vida. Ensinava História em uma faculdade particular, tinha seu grupo de estudos sobre a História dos Derrotados. Conversava com monstros e tentava conciliar, resolver problemas, situações, unir as pontas desunidas de uma sociedade paranóica e tola, que vivia entre a eternidade e o vulgar. Mas, dentro desse mar de papagaiada, ele tentava se agarrar a verdades universais: um norte consciente para que não perdesse no próprio jogo.

O Sol brilha, a grama cresce, os pássaros cantam no raiar do dia e Alfredo era herdeiro de um homem de honra. Um visionário, um verdadeiro conciliador, um mártir de sua causa. Ele, por mais que se esforçasse em se manter aberto e amigável, sabia que não tinha um único grama de talento de seu mentor. Mas ele se esforçava. Talvez se esforçava demais em uma tarefa que ele nunca conseguiria – completar uma Sinfonia Inacabada. Prever, antecipar e continuar tocando a obra, a despeito de seu idealizador já não estar neste mundo há meio século. Era um Salieri com barriga e barba malfeita.

Mas, naquela noite, depois do desespero, das linhas vermelhas avançando, do Deus Ex Machina completamente inesperado onde o rato rugiu e o Assassino do Deserto temeu por sua vida, Alfredo testemunhou as portas da Verdade se abrindo debaixo de uma luz pálida que não era acesa há mais de 50 anos. Não havia mais nada no lugar, não havia norte, não havia mais nada. Ecos de uma conspiração ainda mais antiga que todos os sonhos paranóicos que tivera desde que entrara nesse jogo. Ele se viu em um platô, contemplando o Aconcágua de dúvidas, mentiras, traições e planos.

E os dias felizes ficaram para trás. Não havia motivos para sorrir de maneira falsa. A Cidade de Esmeralda ruíra sob seus pés há 50 anos, e pouco do que estava de pé lembrava a Era de Ouro. Ele viu tudo que lhe era querido ser tomado como um banco que toma o carro dos sonhos de um pobretão em menos de um mês – a namoradinha, o mentor, a fama, a fortuna e o terror que seu nome poderia inspirar quando era mencionado em certos pontos da cidade. E, ao ver tamanha documentação, cartas e mapas, sonhos e estratégias, Alfredo não era mais ele mesmo. Ele era ele, em seu estado natural. O monstro. Não mais o guardião de uma tradição antiga, não mais uma engrenagem de uma sociedade construída para se preservar. Ele era o Filho do Diabo.

E foi nesse estado natural, entre a raiva e a frustração, que Alfredo apertou as mãos de Satanás. E não foi por falta de aviso – talvez avisos demais. Mas ele precisava saber, precisava ter idéia do que poderia estar por trás de tudo, descobrir o Plano-Mestre. Bom, Alfredo está no Plano Mestre agora. Mas não poderia ser revelado ao mundo, não naquele instante, não da maneira que aquele engravatado queria.

Então Alfredo ouviu então a ordem – “acabe com isso!”. Era o sinal. Estava na hora de tomar o caminho sem volta. Sabia das conseqüências para si se Enrico não estivesse de pé ao lado dele no instante que a Cavalaria do Alto Escalão chegasse – não ocorreiram punições administrativas, não ocorreria um mero “sabão” em público. Ele precisava seguir com o plano. Colocou a bala na câmara de seu PT-92, retirou o carregador como um sinal de reverência. Não teve coragem de olhar no instante em que puxava o gatilho, enquanto sentia todo o inferno subir à boca do estômago e, pela primeira vez em muito tempo, sentiu vontade de se explodir em lágrimas e asco. Podia sentir os olhos inquisidores dos santos, dos afrescos, das imagens e de Jesus Cristo no altar, que há muito tempo o havia abandonado, podia mesmo ver os olhos mortos de Giulia o contemplando como a quem vê um desastre com a impotência dos espíritos.

Mas ele precisava engolir tudo o que sentia. O recém-convertido apenas se deu ao trabalho de recolher os restos de seu correligionário. Acendeu duas velas no oratório – uma para a alma daquele que havia partido deste mundo, uma para a própria alma que agora ficava pendurada por um único fio. Fechou as portas da igreja com cuidado, com uma música pop na cabeça que falava sobre alguém que governara o mundo e que sabia que São Pedro jamais diria seu nome.

– O que aconteceu, Alfredo?

– Eles voltaram. Os anarquistas voltaram. Um anarquista matou Enrico.

Hora de voltar ao palco. Hora de voltar a mentir. Precisava seguir com o plano. Ele prometera a Enrico que seguiria o plano. E ele seria seguido à risca. Uma morte, um mártir para a causa. A vida, afinal de contas, é dura.

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