Archive for the ‘André’ Category

Tá na horra de matar a fomê!

Posted: 07/20/2011 by El Gordo in André, Curiosidades, Doritos, Games

Sai dessa vida, xará.

Olá, meninos e meninas. Depois do meu momento “Dormi com ‘Deuses Americanos’ sob o travesseiro” com o teaser de um projeto de jogo que está sendo elaborado em SP/Capital (com vagas abertas para todos, apenas entre em contato), vamos retomar a programação normal com aquilo que mais gostamos de falar – qualquer coisa que não envolva diretamente o RPG, regras e demais convenções.

Hoje… comida. Sim. Comida.

De todas as coisas necessárias para uma boa mesa de RPG (bons livros, boa história, bons jogadores e boa trilha sonora), uma que sempre passa batido é uma boa seleção culinária – é o que, de fato, prende as pessoas dentro de sua narrativa. Porque já se dizia na Batalha de Canudos que bons soldados não lutam com fome: a última coisa que você quer é que a atenção daqueles malditos p*tos se disperse enquanto eles resmungam “Fulano, não tem nada de bom pra comer aí?”. Acredite-me: RPGistas são uns tremendos de uns famintos e eles não estão apenas com sede de uma boa aventura, XP e itens que deixem suas contas-de-banco/fichas de personagens extremamente apelativas e poderosas. (E, pelas minhas contas, eu devo 2kg de biscoitinhos de pinga a um amigo de Bauru.)

A capacidade culinária de um grupo de RPG varia e varia muito – principalmente pela idade média de seus participantes. Nos bons e velhos tempos da adolescência que não volta mais, as coisas se resumiam basicamente ao trinômio “pizza – refrigerante de cola – biscoitos recheados com carinhas felizes estampadas”, que é a Santíssima Trindade dos Gordinhos Tetudos. Bom, barato, dá energia e enche os jovens cérebros de calorias e açúcar para meter as caras nas mais loucas roubadas em busca de aventura, fama e fortuna.

"Me passa o D10 e a maionese verde, faz favor."

Esta equação de sucesso continua inexorável mas perde eficácia conforme os jogadores envelhecem, (geralmente) perdem cabelo e ganham novas responsabilidades – a pizza fica cada dia mais cara, a glicose e a pressão alta te colocam no regime dos refris “diet” (que funcionam bem também como desentupidores de privada), e você fica patético brigando com seu filho de oito anos por ter comido as bolachinhas recheadas dele. Mas a pizza, o refrigerante e os biscoitos (ou bolachas, dependendo de onde você estiver lendo) seguem fortes na preferência popular.

Não vou mentir – depois que se passa pelo portão da maioridade e as benesses que traz, algumas coisas são incorporadas ao espaço de jogo: cerveja, cigarros, um uisquinho depois da mesa para confraternizar (isso no caso dos mais abastados, claro). Coisas que não compõem apenas o jogo e seus aspectos práticos, mas torna a reunião para matar orcs e aranhas gigantes em um evento pra relaxar a cabeça e as idéias. Qualquer coisa cai bem com RPG – é como farinha de mandioca na comida. Mas existem coisas que farão a sua vida um pouco mais épica.

"Engordura meu 'Lobisomem' da 1ª Edição que eu vou servir seus dedos como tira-gosto. Como estão os aneis de cebola?"

Partindo dos clássicos e indefectíveis potinhos de amendoim japonês (que não engordura tanto, não te mata de sede e ainda serve como arma de curto alcance, mirando nos olhos do Narrador), você pode seguir por várias trilhas de petiscos de mesa, conforme seja a sua necessidade. Do tremoço e do queijo-nozinho, indiscutíveis nas mesas de boteco perto da Estação Portuguesa-Tietê em São Paulo, passamos por coisas mais requintadas como provolone fatiado, salame com um limãozinho e orégano, o “salgadinho com milho sabor nacho” com cobertura de queijo mozzarella, anéis de cebola e, por quê não, coxinhas. Qualquer lugar hoje conta com um super-atacado que vende coxinhas “modo cozinha industrial”. Ponha esse bando de fominhas para abrirem as carteiras e providencie algo com sustança. Procure na internet como fazem aneis de cebola: acredite em mim, vale a pena.

Se quiser ser mais chique e cosmopolito, faça uma sopa ou caldo para as mesas que viram a madrugada gelada do centro-sul do Brasil. Se estiver nas bandas onde o sol esquenta até mesmo depois de se por, fique a critério e com os preceitos de sua culinária regional. Apenas atente-se ao bom-senso de não preparar uma bomba digestiva, ou meu próximo post pode ser “Como limpar o banheiro que foi bombardeado depois de uma sessão de RPG com comida pesada, calor e indigestão”.

Meus caros amigos, aproveitar algumas coisas boas da vida não fazem mal a ninguém. Comer, desde que com parcimônia e com responsabilidade social e ambiental, pode ser uma arte e um aprendizado. Afinal de contas, você pode aprender em uma mesa com pessoas desconhecidas como fazer aquele petisco requintado que cabe também com um vinho merlot, uma meia-luz, um filme no home-theater e um sofá aconchegante.

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A vida é dura – um teaser.

Posted: 07/06/2011 by El Gordo in André, Contos, Personagens, Vampiro

Alfredo lavou a cara com a água cristalina do lavabo de pedra italiana pouco depois de acordar. Algo que ao mesmo tempo evocava tempos antigos e um tempo que jamais viveu. Não era sua primeira incursão no meio de tamanha granfinagem, mas ele sabia que não teria um tempo tranqüilo.

Correu para o salão abarrotado de VIPs e seguranças para acompanhar com ansiedade os desdobramentos da Conspiração. Sabia que aquele tiro era de longa distância, era um plano audacioso ao ponto do ridículo e dependeria mais da sorte que Deus reservaria naquela noite que por um método científico, prático, lógico. Mas sabia muito bem que naquele seu mundo, com as coisas que tinha visto em todos aqueles anos, a lógica era uma piada e dois mais dois nunca poderia ser quatro.

Entretanto, no meio do tiroteio e das câmeras de tevê esquadrinhando todos os cantos de São Paulo na noite do mais violento ataque orquestrado por uma facção criminosa da história recente da cidade, as coisas não estavam indo bem. No mapa de batalha, as linhas vermelhas estavam sobrepujando as azuis em todos os pontos-chave originais, e avançavam. Avançavam com uma velocidade assombrosa. Aterrorizante. Pensou que o prédio de luxo, tradicional do centro da cidade, poderia ser sua Alexanderplatz, sua última linha de defesa antes do inexorável fim que aguarda a todos. Começou a pensar no que poderia acontecer se o Turco chegasse até aquele andar e encontrasse o Buffet dos sonhos. Todas as Cabeças Coroadas do Submundo de São Paulo estavam em um único lugar, prontos para serem colhidos como frutas maduras do pé. Pensou se não seria aquele o momento em que ele se jogaria nos braços da morte para seguir a tradição da família – sacrifícios pela causa de igualdade e de um governo justo no inferno cotidiano. Tal como ocorrera com seu mentor.

Naquele instante, no terraço do prédio imponente, longe dos olhos dos seguranças e de qualquer bom-senso, Alfredo sentiu medo. “Ligue para o pessoal do Alto Escalão. Estamos perdendo. Precisamos de ajuda. Mande todo mundo pra cá. Já não há mais condições”, ordenou a seu escudeiro em um canto escuro da cidade, isolado de todo o tormento que assolava a capital paulista.

E a vida, com suas piadas e idiossincrasias, veio como uma punchline de uma piada de salão na volta. “Nós vencemos, Alfredo. Os turcos estão recuando. Tão cedo não teremos problemas com eles”, disse o velho com sotaque italiano e com pouca disposição a se prolongar.

“A primeira lição neste jogo é ser paciente, Alfredo. Acalme-se. Deixe as linhas se definirem”, o seu mentor o ensinou, antes mesmo do tempo do lampião a gás ser um sonho de consumo na paulicéia. Não haveria perdão, não haveria rede de segurança, ninguém ficaria no caminho da bala para salvar seu couro. Desde aquela fatídica noite, ele nunca se sentiu tão sozinho. Sentiu o ódio e o desejo do Italiano em destruir seu último fôlego de vida se materializar no ar, enquanto seu velho amigo na Cidade Universitária pedia uma mera carona para casa. “Acabaste de perder um bispo em sua estratégia, Alfredo”, falou o velho Dario com sua voz lacônica, como se ensinasse uma criança a andar de bicicleta.

E com a solidão dos loucos e dos suicidas, longe de tudo que lhe era familiar e seguro, Alfredo se deixou cair para dentro do mausoléu dos Enforcados. E para dentro de sua própria ruína.

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“Siga com o plano”. O som seco da pólvora e o som chocho dos punhos golpeando o crânio ressoavam na nave da igreja, em plena noite de silêncio, temor e morte. Os óculos, símbolo oficioso de seu caráter pacifista e conciliador, a outrora marca do mediador, voaram da face de Alfredo com o ódio do punho que trabalhava seu recém-feito inimigo como um bate-estacas de construção finca os pilares de um arranha-céu. A cada descida do braço, como um fole que alimenta o braseiro, algo crescia.

A mentira era parte de seu trabalho e de seu meio de vida. Ensinava História em uma faculdade particular, tinha seu grupo de estudos sobre a História dos Derrotados. Conversava com monstros e tentava conciliar, resolver problemas, situações, unir as pontas desunidas de uma sociedade paranóica e tola, que vivia entre a eternidade e o vulgar. Mas, dentro desse mar de papagaiada, ele tentava se agarrar a verdades universais: um norte consciente para que não perdesse no próprio jogo.

O Sol brilha, a grama cresce, os pássaros cantam no raiar do dia e Alfredo era herdeiro de um homem de honra. Um visionário, um verdadeiro conciliador, um mártir de sua causa. Ele, por mais que se esforçasse em se manter aberto e amigável, sabia que não tinha um único grama de talento de seu mentor. Mas ele se esforçava. Talvez se esforçava demais em uma tarefa que ele nunca conseguiria – completar uma Sinfonia Inacabada. Prever, antecipar e continuar tocando a obra, a despeito de seu idealizador já não estar neste mundo há meio século. Era um Salieri com barriga e barba malfeita.

Mas, naquela noite, depois do desespero, das linhas vermelhas avançando, do Deus Ex Machina completamente inesperado onde o rato rugiu e o Assassino do Deserto temeu por sua vida, Alfredo testemunhou as portas da Verdade se abrindo debaixo de uma luz pálida que não era acesa há mais de 50 anos. Não havia mais nada no lugar, não havia norte, não havia mais nada. Ecos de uma conspiração ainda mais antiga que todos os sonhos paranóicos que tivera desde que entrara nesse jogo. Ele se viu em um platô, contemplando o Aconcágua de dúvidas, mentiras, traições e planos.

E os dias felizes ficaram para trás. Não havia motivos para sorrir de maneira falsa. A Cidade de Esmeralda ruíra sob seus pés há 50 anos, e pouco do que estava de pé lembrava a Era de Ouro. Ele viu tudo que lhe era querido ser tomado como um banco que toma o carro dos sonhos de um pobretão em menos de um mês – a namoradinha, o mentor, a fama, a fortuna e o terror que seu nome poderia inspirar quando era mencionado em certos pontos da cidade. E, ao ver tamanha documentação, cartas e mapas, sonhos e estratégias, Alfredo não era mais ele mesmo. Ele era ele, em seu estado natural. O monstro. Não mais o guardião de uma tradição antiga, não mais uma engrenagem de uma sociedade construída para se preservar. Ele era o Filho do Diabo.

E foi nesse estado natural, entre a raiva e a frustração, que Alfredo apertou as mãos de Satanás. E não foi por falta de aviso – talvez avisos demais. Mas ele precisava saber, precisava ter idéia do que poderia estar por trás de tudo, descobrir o Plano-Mestre. Bom, Alfredo está no Plano Mestre agora. Mas não poderia ser revelado ao mundo, não naquele instante, não da maneira que aquele engravatado queria.

Então Alfredo ouviu então a ordem – “acabe com isso!”. Era o sinal. Estava na hora de tomar o caminho sem volta. Sabia das conseqüências para si se Enrico não estivesse de pé ao lado dele no instante que a Cavalaria do Alto Escalão chegasse – não ocorreiram punições administrativas, não ocorreria um mero “sabão” em público. Ele precisava seguir com o plano. Colocou a bala na câmara de seu PT-92, retirou o carregador como um sinal de reverência. Não teve coragem de olhar no instante em que puxava o gatilho, enquanto sentia todo o inferno subir à boca do estômago e, pela primeira vez em muito tempo, sentiu vontade de se explodir em lágrimas e asco. Podia sentir os olhos inquisidores dos santos, dos afrescos, das imagens e de Jesus Cristo no altar, que há muito tempo o havia abandonado, podia mesmo ver os olhos mortos de Giulia o contemplando como a quem vê um desastre com a impotência dos espíritos.

Mas ele precisava engolir tudo o que sentia. O recém-convertido apenas se deu ao trabalho de recolher os restos de seu correligionário. Acendeu duas velas no oratório – uma para a alma daquele que havia partido deste mundo, uma para a própria alma que agora ficava pendurada por um único fio. Fechou as portas da igreja com cuidado, com uma música pop na cabeça que falava sobre alguém que governara o mundo e que sabia que São Pedro jamais diria seu nome.

– O que aconteceu, Alfredo?

– Eles voltaram. Os anarquistas voltaram. Um anarquista matou Enrico.

Hora de voltar ao palco. Hora de voltar a mentir. Precisava seguir com o plano. Ele prometera a Enrico que seguiria o plano. E ele seria seguido à risca. Uma morte, um mártir para a causa. A vida, afinal de contas, é dura.

Double Shot de Sexta-Feira!

Posted: 06/17/2011 by El Gordo in André, Cultura, Curiosidades, Games, Luciana

E aí, firmezinha? Entonces, eu sou uma marmota e eu estava com esse texto tamborilando na minha cabeça, mas os fatos na última semana não deixaram que eu conseguisse subir um assunto bacana no dia certo. Por isso, eu estou entrando com esse texto com quase uma semana e meia de atraso – não acontecerá de novo. E com um bônus, cobrindo a falha da minha boa amiga Luciana.

Parte 1: “E um dia, os seus filhos, Kal-El!”

Sim, isso é possível.

Ah, os prazeres da maternidade. A obrigação genética de passar nossa carga para a próxima geração, tentar fazer com que eles não cometam os mesmos erros que cometemos no passado. Como comprar livros pirateados e jogar 3D&T. Sempre nos perguntamos depois que vemos um pimpolho nos braços de um casal nerd como será o rebento nas próximas gerações: se ele vai ser um Nerd de Quarta Geração Bazingueiro, se ele será uma ostra social, ou, enojado com a imagem dos pais se vestindo de Steampunk com quase quarenta anos nas costas, ele vai gastar toda a sua mesada com academia, pó, birita e prostitutas do baixíssimo meretrício. Sempre considerou-se uma aposta arriscada ser um nerd e tentar criar um filho aos moldes clássicos do estereótipo.

A pergunta era uma sombra de dúvida não apenas nos rumos que teriam os aspiras da Nova Geração de roladores de dados e preenchedores de fichas quilométricas, porque para ser sincero, era mais fácil descobrir a fórmula do refrigerante cujo nome eu não digo que ver um casal nerd procriar e continuar junto e fazer com que seus genes conseguissem passar para a frente. Os mais puristas acreditam que a nerdice e o gosto pelo RPG são adquiridos com o tempo, uma condição social que impele os que ficam pra trás na corrida pelas menininhas ou menininhos (dependendo do sexo ou do “caminho da alma”) a se reunirem e afogarem suas tristezas e mazelas sociais com dados, salgadinhos, cigarros roubados da bolsa de mamã e sonhos idílicos onde eles são seres poderosos e/ou atormentados bagarai.

Entretanto, graças aos efeitos da Sociedade Civil Organizada do Anel em busca de um lugar ao sol desta minoria que aceita todas as outras maiorias, vem se notando grandes esforços para transformar a nerdice e a paixão por esse nosso pequeno esporte em uma coisa mais natural e passível de se transformar em um instrumento familiar. RPG FAMILIAR – quando você, seu velho safado que vivia de livros fotocopiados e revistas mensais com aventuras half-baked e resenhas mais porcas que as que eu escrevo hoje, poderia imaginar que ouviria essas duas palavras na mesma sentença?

Pois essa desgrama acontece mais do que você imagina. Graças aos bons velhotes das mesas, pioneiros na nerdice que cresceram e conseguiram seu lugar ao Sol em setores estratégicos (mwa-ha-ha-ha), conseguimos colocar o bom e velho Jogo de Interpretação de Papeis em um patamar pedagógico, didático, divertido. Eu me lembro de uma aventura one-shot em uma aula de história por uma professora substituta gorda como o “Comic Book Store Man” sobre os exploradores do sertão, isso na oitava série, no ano longínquo de 199e-não-te-interessa. E acreditem quando eu digo, meninos e meninas que estão lendo isso graças ao Google – com D20 e GURPS você pode fazer um jogo de RPG educacional de QUALQUER COISA. Inclusive de Nelson Rodrigues e Rubem Fonseca. Fica a dica.

Chaotic Neutral na veia e nos livros escolares. Não em todos, mas em alguns.

A despeito de toda a agenda antinerd que sempre de vez em quando escutamos – principalmente os casos desses malditos hardcore-gamers que brincam de Ritual em um cemitério com gentinha de verdadinha com adaguinha de verdadinha – estamos deixando um bom rastro para os nossos pimpolhos. Como experiência pessoal, os poucos nerds que conheço que possuem rebentos estão doutrinando os pequenos na doutrina de rolagem de dados. E também em não estranhar quando virem os pais saindo fantasiados de casa para um evento ou live-action.

Além do mais, se seus pais te toleram nerd jogador de RPG – de mesa, de videogame ou qualquer outro jeito que inventem nas próximas décadas – fica muito mais fácil o garoto crescer e ter vontade de ser o que quiser. Engenheiro, arquiteto, psicólogo, um Toreador Antitribu, Ranger da Aliança, etc…

Melhor ter uma foto vestido de Yoda no passado que uma foto com a camisa do Palmeiras. Acredite-me.

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Parte 2: Jack Flack Sempre Escapa!

Bom, a pedidos da Luciana – que está “assoberbada de trabalho” (como diria a vadia malcomida da minha primeira patroa no Jornalismo, em um jornalzinho semanário de Jacareí) com seus afazeres em assuntos que não são da minha conta, eu resolvi tapar esse pequeno buraco tentando emular um pouco do estilo da moça, sempre mais ligada na questão cultural e afins.

Bom, eu curto cinema. Filmes, curtas, trailers, trilhas sonoras, o que você quiser – eu só não fiz uma faculdade relacionada porque minhas mãos tremem com uma câmera e achava que isso daria menos dinheiro que jornalismo (isso é possível?). E, como todo garoto da geração dos filmes da tarde, eu fui vendo um monte de filmes antigos que tinham alguma ligação com o mundo nerd. Poderia falar da trilogia De Volta para o Futuro, poderia falar da fantasia medieval de “O Feitiço de Áquila” (que poderia ser facilmente o kickstart de qualquer aventura de Dungeons & Dragons antiga), “Os Garotos Perdidos” e seu retrato de vampiros que mordem pescoços femininos, e não fronhas, vivendo na excelência de uma imortalidade jovem em Santa Monic…. Santa Carla (no primeiro corte, onde aparecia um pezinho de maconha na casa do velho, que depois foi editado para tornar o filme mais familiar no horário da tarde), mas não. Temos que ir mais fundo.

“Os Heróis Não Tem Idade” (Cloak & Dagger, EUA, 1984) é um desses filmes despretensiosos, feitos quase que numa prensa hidráulica, naqueles dias que se procurava fazer uma ponte entre crianças e aventuras em um ambiente ao mesmo tempo controlado e desafiador. O resumo da história: um garoto Forever Alone recebe de um moribundo um cartucho de videogame com planos secretos embutidos, e começa a ser perseguido por espiões interessados no McGuffin para Atari 5200. O garoto, desacreditado por todos como um sonhador e mentiroso contumaz, conta apenas com uma pistola d’água, uma bola de softball e a inspiração de um amigo imaginário que é um espião de um jogo de RPG de mesa e vídeo: Jack Flack, o espião.

Esse filme não passa na Regra dos Quinze Anos (a que qualquer filme que era bom na sua infância fica uma merda depois do 15º aniversário) por uma série de fatores: desprezar um garoto dizendo que tem segredos de Estado no auge da Guerra Fria do Reagan X Andropov é ignorar demais a paranóia que vivia a nação americana naqueles dias de Rambo e Rocky X Drago, os espiões que não conseguem dar conta de uma criança em fuga não conseguiriam nem mesmo um estágio na ABIN (que descobriu de terceiros certa vez que Osama Bin Laden deu uma palestra em Cidade do Leste em 1996, antes de ter fama internacional), os personagens são caricatos e o escambau. O filme, em suma, não é o primor de roteiro e direção. Mas ele tem uma coisa a mais, além do tempero da infância.

Pela primeira vez fora do circuito Trilamb de esculacho generalizado de nerds e seus costumes podemos ter a aplicação de conceitos de RPG em um efeito válido e interessante, tanto como efeito de cenário como para narrativa. Na primeira cena vemos uma sequência de ação onde Jack Flack escapa de uma série de espiões com piruetas e papagaiadas dignas de um espião faz-tudo. Inclusive de dois D-20 que rolam em sua direção. Embora mostrem na cena seguinte um gordo-nerd-padrão trabalhando em um computador, esse nosso passatempo favorito não é apenas uma diversão para gordos suados trancados em um quarto escuro bebendo e suando aventuras medievais. É uma coisa que pode ajudar nossos pimpolhos a conseguirem ter mais cérebro.

Alguém está vendo um óculos fundo-de-garrafa ou um protetor de canetas de bolso nesse jovem mancebo?

O problema é que, tal qual 90% da população brasileira, só fui conhecer RPG com as notícias bizarras da televisão. Mas ainda sim foi uma boa maneira de apresentar “O esporte” para o pessoal.

Pra quem viu, relembre. Pra quem não viu, veja.

La Belle des Cubes

Posted: 06/01/2011 by El Gordo in André, Cultura, Uncategorized

"ESPERANÇA: Porque ela pode realmente querer saber do seu Paladino Nível 12."

Tristes tempos eram aqueles em que tínhamos que suportar o mestre-de-jogo fazendo voz em falsete para interpretar uma donzela em perigo, e tentar imaginar do fundo de nosso cerebelo que aquele cara gordo e tetudo na verdade era a Michelle Pfeiffer em “O Feitiço de Áquila”. Naqueles dias era o verdadeiro RPG por amor à camisa manchada de refrigerante e salgadinhos gordurosos (cujo nome eu não coloco nessa coluna enquanto eu não conseguir um jabá).

O gênero feminino passou por muito tempo longe da nerdice generalizada, basicamente por conta do modelo neoliberal de antigamente onde o macho-alfa era o principal provedor de diversão sem risco de acabar em um relacionamento doentio, uma gravidez indesejada ou uma DST. Em suma: de uns tempos pra cá, o Lewis Skolnick digievoluiu para o Steve Jobs, ganhou um blazer Armani e virou um cara pegável.

“Mas El Gordo, isso é machismo! Você está sendo sexista, está esquecendo que existem sim mulheres nerds – inclusive, elas escrevem aqui neste espaço, sua besta!” – Sim, meu caro amigo leitor. Existem mulheres nerds, assim como existem mulheres que não são nerds e que ainda sim estão no bandwagon da moda nerd. Se você conhece uma mulher nerd fo’real, sorte a sua. Com a ajuda do Vento e das Divindades do D10, vamos chegar do lado de fora da ficha e ver como conviver com esse admirável, cheiroso, esteticamente atraente mundo novo, allons-y?

Cara, elas não são homens com peitos.

Sim, eu sei. É uma coisa que o cunhado do El Gordo ensinou há mais de 15 anos, em um churrasco de família enquanto ele falava dos seus tempos de jovem, quando colocava duas moças de vida airada em seu Escort Conversível pela Rua Augusta, lá na década de 1980. Mulheres não são homens sem aquela coisa balangando lá embaixo.

A dinâmica varia de caso pra caso – existem mulheres que não se incomodam de ouvir uma piada suja aqui ou ali, existem mulheres que também arrotam naturalmente depois de tomar duas garrafas de cerveja ou um litro de refrigerante. Elas também falam palavrão quando estão nervosas. Mas encarar este momento de defesa baixa de uma mulher – do estado natural, quando está sozinha – como mais uma ogrice padrão de um homem é de uma estupidez sem tamanho.

"ISTO não é uma mulher nerd. Não. Nem a pau."

E, acima de tudo: Diga não À Abelha-Realeza.

Embora resolvidas e liberadas pós-1970, a mulher-padrão ocidental tem pontos a mais em sua ficha da Vida para Manipulação e Representação. Não, não é um machismo, é um fato consumado: pense em todas as vezes que você cedeu espaço por um biquinho que ela tenha feito ou um cafuné cirurgicamente disparado em uma sessão de cinema.Você sabe do que estou falando.

Este tipo de interação social pode até ser bonitinho e pode te conseguir um espaço de destaque da Zona da Amizade, mas dentro do território das mesas e jogos de RPG bancar o operário trabalhando para a Abelha-Rainha pode te render mais dores de cabeça que imagina. Juntar forças com aquela mocinha bonita do outro lado da mesa por um objetivo comum e plausível – seja conquistar o Castelo do inimigo ou acabar com a sanidade do Mestre – é uma coisa, ser o capacho dela em jogo para conseguir alguns favores sentimentais fora dele não é apenas antiético: é creepy pra caralho.

Não é porque você é um nerd que você não pode ter autoestima e se impor. Mas, pelo amor do Bacon, lembre-se da primeira regra. Impor sua opinião não envolve dadodolabellices como berrar, gritar, insultar, esculachar, bater, agredir, embulachar, usar armas improvisadas ou qualquer outro tipo de assédio moral ou físico.

Bom, isto aqui é apenas um toque. Cadum é cadum, já dizia o profeta. A beleza desse mundo é que tem agora, por conta da bazzingagem nossa de cada dia, cada vez mais gente de origens e pensamentos diferentes jogando esse tal de erre-pe-gê. Pense com o cérebro, ele não foi feito apenas para processar birita e te dar um sustento. Bom-senso, personalidade e um pouco de audácia podem fazer da sua experiência mista de RPG a diferença entre um amorzinho nerd ao som da trilha de Vampire The Masquerade: Bloodlines e a reedição da primeira temporada de The IT Crowd, que é uma série muito fodapracaralho e recomendo que assistam, seus wankers.

Em comemoração ao dia do Orgulho Nerd, ou Dia da Toalha (e se você não sabe do que se trata, está lendo o blog errado, oras!), vamos listar – sim, um post feito a oito mãos, sem sacanagem – as dezenas de utilidades que uma toalha pode ter no seu próximo live-action:

"é toalha de banho, não toalha de mesa, sua besta!"

  • Enrole na cabeça (estilo – saindo do chuveiro) e vire um Malkaviano;
  • Enrole na cabeça (estilo turbante) e transforme-se imediatamente num Assamita;
  • Prenda na frente do seu rosto horrendo e interprete facilmente um Nosferatu (conforme o caso, empreste a toalha para seu coleguinha e mostre o rosto horrendo, mesmo);
  • Amarre em forma de bandana na cabeça e, voíla, temos um brujah da “gangue das toalhas”;
  • Seu misterioso Tremere vai ficar um charme com um manto místico feito de… toalha;

"Ai, arrasei no estilo neomarginal urbano do Mundo das Trevas! Ser Nosferatu pobre é tendência, sabia?"

  • Já um gangrel pode ir ao live nu, com uma toalha nas costas. (responsabilidade jurídica: não garantimos que você não será preso);
  • A namorada abusou no decote do corset? Envolva a moça na toalha! (não esqueça da desculpa de que está muito frio!);
  • O namorado está se distraindo do jogo observando as pernas daquela toreador? Venda de toalha no cara! (diga que vocês vão fazer um “joguinho” que ele vai se animar :));
  • A toalha pode cobrir a menina  que veio vestida como quem está no Baixo Augusta a trabalho de Terceiro Turno, mas pode ser uma arma de sedução mais devastadora se a jogadora tiver peito e coragem para ir a um evento apenas de toalha – não faça essa cara, sabemos que você já viu o vídeo das ninfetinhas do Anime Friends apenas de toalha, seu pervertido!

"você pode não acreditar, mas elas jogam RPG há mais de 5 anos. Elas sabem o que fazem quando querem chamar a atenção num evento."

  • O cara não tem senso de roleplaying e veio de pantufas? Molhe e dê uma surra  pra ver se ele ficar esperto! – o bom e velho Bullying
  • Artefato de cenário como “Bandeira” de alguma facção, família, reino ou alhures. Lembrando que todos os live-actions acontecem geralmente com uma cenografia pior que de circo do interior.
  • Ainda dentro da temática cenografia realista: o grupo Nosferatu anfitrião do evento usa toalhas para vedar a luz do sol. Os toreadores vão de-li-rar!
  • Quer perder uns pontinhos de status social? Compareça com a toalha ainda suja do sangue do lanchinho que seu descuidado caitiff fez antes de chegar à reunião.

Isso é groselha, seu Príncipe!

  • Um bom ravnos faz cerca de cento e vinte e três números de ilusionismo diferentes com uma simples… toalha!
  • Seu Narrador é incrível e você entrou demais no clima do Mundo das Trevas? Seque o suor com sua toalha!
  • Tá sem lugar pra se trocar? Peça pro amiguinho segurar a toalha na sua frente!
  • Uma toalha serve também para cobrir a mesa de salgadinhos, Doritos e demais quitutes que só deverão ser consumidos DEPOIS do live – o que os olhos não veem, a boca não prova!

Uma toalha branca + 2 buracos = Wraith

  • Se esconda debaixo da toalha para simular invisibilidade (bem melhor que ofuscação);
  •  Jogue por cima da cabeça e “tchã-rã”, teleporte instantâneo:
  •  Taque fogo na toalha: bola de fogo! (responsabilidade jurídica: nenhuma, não temos culpa se você repete qualquer idiotice que lê na internet)

    "Mantenha sua toalha sempre limpa. Ela não é passaporte pra ter carimbo de origem"

Feliz dia do orgulho nerd pra vocês! Não entre em pânico!