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Por Linhas Tortas

Posted: 09/06/2011 by El Gordo in Cultura, Filmes

por El Gordo

 

Bom… Quando a Kath me chamou para compor o quadro do SCD, disse que a proposta inicial do blog era de compartilhar opiniões de nerds para nerds de coisas do nosso cotidiano. Eu comecei falando sobre coisas aleatórias do mundo dos RPGistas, mas vamos ser sinceros: ser nerd é muito mais do que isso. Portanto, depois de uma segunda-feira de tempo seco e sem muito o que fazer, usei meus R$ 4 bem gastos e resolvi ir ao cinema.

Poderia falar sobre Apollo 18, filme sci-fi que seria um cruzamento de “Blair Witch Project” com o videogame de terror espacial “Dead Space”. Mas acho que eu tinha uma dívida com o cinema nacional e segui para a sessão mais vazia daquela tarde: “O Homem do Futuro”, de Claudio Torres.

A história é um pouco do que já vemos quase sempre, mas com uma pitada nova: Dr. João “Zero” (Wagner Moura) é um professor universitário à beira de um ataque de nervos que possui três motores principais em sua vida: o rancor pelo passado, o desejo de tornar as vidas de seus estudantes de Física o mais miseráveis possível, e a ambição de colocar o seu nome entre os maiores da história da Ciência, pesquisando uma nova forma de energia. Em meio a um experimento realizado à beira da expulsão de seu cargo de pesquisador, ele consegue encontrar uma fenda temporal para o seu passado em seu momento mais crítico – como vítima de bullying de uma festa universitária há 20 anos, onde perdeu Helena (Alinne Moraes), o grande amor de sua vida, para uma carreira de modelo, fama e glamour. Com esta janela para o passado, fruto de um experimento falho e randômico, ele pode ter a chance de recuperar as duas décadas perdidas de amargura e solidão, com a esperança de que não crie maiores problemas e paradoxos temporais. Para quem entende as premissas, sabe muito bem que viajar no tempo pode ser uma merda sem tamanho. Ou pode ser a aventura de uma (ou de várias) vida(s).

O filme bebe na fonte e faz referências e homenagens clássicas a muitos filmes e livros envolvendo o conceito de viagem temporal e universos paralelos – de clássicos como “Donnie Darko”, “Terminator” e “Back to The Future”, até mesmo a dramas românticos como “Butterfly Effect” e séries como “Fringe”, “Heroes” e, em uma das injustiças do filme (que não recebeu a menor menção, mesmo tendo alguns de seus conceitos e pivôs teóricos aplicados na prática), a série inglesa fodida-de-bom-pra-caralho “Doctor Who”. Entretanto, para somar tantas fontes, teorias e “ethoi” distintos, é preciso de uma sensibilidade e uma criatividade dignas para que o resultado final não penda para os lados da galhofa (como as viagens de Ash em “Evil Dead”) ou para a tediosa teoria do Acidente de Campo Temporal, onde uma flor esmagada no lugar errado pode constituir a Terceira Guerra Mundial ou mesmo o retorno dos dinossauros. No fim das contas, por não pender para nenhum dos lados, “O Homem do Futuro” constitui-se em 105 minutos de divertimento para uma tarde modorrenta, bem longe da cabeçudice padrão do cinema nacional pós-Quatrilho, onde foi redescoberta a Sétima Arte aqui em Pindorama. No fim das contas, como os chineses que copiaram aviões-caça e smartphones, estamos de maneira saudável “copiando” a indústria cultural ianque e colocando o nosso tempero nela para tornar mais palatável.

O filme, que vem na mesma toada do entretenimento-pipoca-com-mandioca-frita do novo cinema nacional (que, pela força da Lei, ganhou seu espaço dentro de nossos cinemas), segue o mesmo princípio do fantástico cotidiano brasileiro de filmes como “A Mulher Invisível” (do mesmo diretor) e outros produtos associados, saindo do eixo Favela-Sertão que tanto anima os críticos cabeçudos e tanto me aborrece. Desde “Viva Voz” de Paulo Morelli (2003) com a sempre interessante e apertável Vivianne Pasmanter (*ai, ai*) eu não tinha a oportunidade de ver um filme-pipoca brasileiro que não trouxesse mensagens morais e todo o resto, além das mensagens universais de “resista aos problemas da vida”, “tudo encontra um caminho” e “sempre saiba ler nas entrelinhas do Universo”.

Este filme não está com certeza entre os 10 filmes mais fodônicos que eu vi nos últimos 12 meses, mas também não está entre os 10 piores. O seu mérito principal é que ele conseguiu abrir três novas linhas de pensamento na cabeça deste aspirante a crítico cultural que foi sugado para o universo da política: 1) Mostrou que Wagner Moura está em um caminho de redenção depois de ficar internacionalmente conhecido como Roberto Nascimento, o Herói da Classe Mérdia de “Tropa de Elite”, 2) O cinema brasileiro está começando a aprender a fazer cinema com efeitos especiais e de uma maneira que atrai as pessoas, 3) A Brunna Lombardi com o filme sobre tomar um chifre e ir para o Caminho de Santiago de Compostella pode ir chupar um canavial de rola, e 4) Acredite se quiser: nas linhas tortas dos filmes sobre viagens no tempo e espaço, “O Homem do Futuro” consegue escrever relativamente reto – com alguns garranchos e erros de sintaxe, mas consegue escrever bem.

 

That’s it.

Uma hora a gente volta.

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