Archive for the ‘Personagens’ Category

As pequenas coisas da vida

Posted: 07/12/2011 by Bruno in Bruno, Contos, Lobisomem, Personagens

Meu nome é João. João da gaita.
Não, eu não tenho dinheiro. Eu tô falando daquele negócio de assoprar, Animal.

Quem me vê hoje em dia, feliz e bonito…
… o que? Eu tenho cara te catarro misturado com terra?!

Tá certo.
Quem me vê hoje em dia feliz e cheio de amigos…
… porra Animal, você é um puta de um corta barato!

Quem me vê assim, bêbado a maior parte do tempo e tocando a gaita como ninguém nem imagina o que eu já passei na vida. Por pior que seja a expectativa, provavelmente não chega nem perto do que foi de verdade.

O orfanato é um lugar triste. Tem seus momentos de felicidade, mas o ar está sempre carregado daquela sensação de que ninguém gosta de você. Afinal, se alguém gostasse de você, você não estaria ali.
As tias eram gente boa, faziam um esforço, mas ninguém gosta de gente feia. Pelo menos eu era limpinho.
Quando se é novo não tem muito dessa história de panela. A molecada se juntava e brincava. De vez em quando até brincavam comigo. Mas quando a gente vai envelhecendo, as coisas mudam um bocado, e eu não tô falando só dos pêlos que crescem lá embaixo e a voz que engrossa. Quem fica pra trás vai ficando amargo. E isso é de se esperar, já que ninguém gosta de você, você passa a não gostar de ninguém. Os valores vão mudando. Tem sempre um idiota que quer ser o foda do pedaço. E esse fodão resolveu descontar a raiva que ele tinha do mundo em mim.
Foram seis meses aguentando todo o tipo de humilhação.

Neste ponto da história eu já tinha percebido que era diferente. Só não imaginava que fosse TÃO diferente assim.

Certo dia estava eu, sentado em um canto do quintal do orfanato, com um teco de papel higiênico enfiado no nariz, tentando parar o sangramento, quando percebi que havia crescido ali uma planta carnívora. Ela ainda era pequena, mas foi o máximo quando ela prendeu uma mosca em uma de suas bocas. Foi mágico.
Eu olhei pra planta. Ela olhou pra mim. Aí tive certeza de que, além de feio, eu era louco. O que é um peidinho pra quem já tá cagado?!

A planta me ensinou um truque muito curioso. Em um minuto eu estava testando o truque, pois o fodão do pedaço estava vindo tirar um barato da minha cara porque eu estava falando sozinho.

Eu me levantei, olhei bem para a cara dele e lhe enfiei um tabefe bem encaixado no meio das fuças.
Animal, eu sei que dar tapa é coisa de moça, mas se eu desse um murro não ia funcionar. Presta atenção!

É claro que eu tomei outro soco no nariz. Deve ser por isso que ele é tão feio.

Em questão de segundos começaram a aparecer moscas de todos os cantos. Elas começaram a rodear o tal do fodão. Ele ficou apavorado. Foi mágico!

Foi quando então começaram a vir as abelhas.

Algumas delas picaram o mister fodão.

Ele era alérgico.

Moral da história: Dê a devida importância para as pequenas coisas da vida. Principalmente se elas tiverem ferrões. Elas podem, tipo assim, te matar se você for alérgico ou alguma coisa do tipo.

Palavra de salvação

Posted: 07/11/2011 by Aurea Gil in Contos, Kathy, Personagens, Vampiro

“Deus vos salve”, eu murmurei, ao ver que Sebastião se aproximava. Ele não me respondeu. Os brancos diziam que ele era um negociante. Pra mim não passava de mais um mestiço como eu. Filho da terra, sim, embora estivesse livre agora.

Toda a família dele, se não morreu ou fugiu, com certeza ainda era índio que se arrastava por aí servindo aos brancos. Só porque esse meia bosta agora anda a cavalo e calça sapato de couro de vaca, acha que é melhor do que os outros todos. Coitado.

Uma movimentação no lado de fora me fez olhar pela janela a tempo de ver aquele feiticeiro chegando, meio andando, meio arrastado pelos capangas do dono da terra. Baraúna. O olho dele me dava medo. O olhar era de raiva, de fúria.

Meu pai me ensinou como lidar com esses índios que não eram acostumados a viver que nem gente. Era com desconfiança. Ficou tal qual o animal que era, acocorado num canto, só faltava rosnar. “Pai do céu me proteja”, eu disse, enquanto tentava lembrar da reza do Espírito Santo.

O último a chegar era sempre Dourival. Estava ali um homem bonito que dava gosto. Usava bota, chapéu pardo, lenço de cabeça, roupa de gente importante, tinha aquele olho verde que parecia uma pedra brilhando no meio da cara barbada.

Era um homem direito assim que uma mulher que nem eu devia arrumar pra ver se eu me aquietava logo desse pecado que me rondava. Era um homem desse que eu tinha que arrumar pra ver se ficava longe de uma vez por todas daquele seu Coimbra.

E por falar no diabo, lá vem ele. Credo em cruz, que se aquele homem não era o capeta, estava muito perto disso. E nem índio era, pra se dizer de feiticeiro. Perto dele o tal Baraúna era um santo do altar.

Era ainda mais branco que Dourival, o desgraçado. Nem muito cabelo tinha na cabeça, só em volta, e nem chapéu não usava. Também não tinha aquele olho que parecia de vidro como Dourival.

 Ao contrário, tinha era um olho que saltava de dentro da cara, e que parecia que me comia naquele olhar de gente que te olha que nem quando vê porco assando no ferro.

Gente ele não era, aquilo era um demônio que me atentava, e me fazia fazer coisas que eu não queria, e o que eu queria agora era não viver mais naquele pecado. 

Todos sempre ficavam agoniados ao ver o seu Coimbra. E quem é que se aquieta ao ver o diacho ali, em pessoa? Enquanto os outros falavam dos índios, das terras, dos navios, da vila, das coisas que ele queria pra ele, e que a gente conseguia pra ele sempre, o que eu fazia era rezar. Nem ouvia nada.

O problema é que o cheiro do pecado dele me tirava da reza e me fazia pensar no sangue quente escorrendo do braço dele até a minha boca, e parecia que eu podia matar um daqueles três só pra ser a primeira a morder o diabo.

“Me ajudai, senhor, repara meus pecados, me afasta desse mal”, eu dizia, tentando nem mexer os lábios. E esfregava as mãos trêmulas no meu vestido rústico enquanto olhava aqueles dentes pontudos do tinhoso, e sentia aquele cheiro de coisa ruim.

“Me concede a graça de perseverar no vosso santo  serviço, meu deus, meu santo pai”, eu murmurava, e quando todos os olhos, os do sarnento e os dos outros todos, se viraram pra mim, contra mim, eu gritei.

Gritei que não conseguia mais, que não dava mais conta, que não tinha mais forças, e apontei que o feiticeiro é quem devia estar no meu lugar, servindo ao capeta.

Apontei o Dourival e disse que queria era ir embora com ele. E foi então que o cascudo abriu seus braços pra mim, dizendo, naquele sotaque forte de português, que ia me libertar.

Dizia que ia era tirar aquele peso todo de mim. O peso do pecado. “Venha, minha filha”, ele disse. E eu me deixei amparar naqueles braços malditos, e foi o que ele fez.

Me levou pros braços do meu pai, por quem eu tanto implorava. Eu descobri que ele não era o capeta, não. Descobri que ali, naquela São Paulo de Piratininga, Coimbra era Deus.

(Texto meu baseado em rolagem de Vampiro a Máscara)

A vida é dura – um teaser.

Posted: 07/06/2011 by El Gordo in André, Contos, Personagens, Vampiro

Alfredo lavou a cara com a água cristalina do lavabo de pedra italiana pouco depois de acordar. Algo que ao mesmo tempo evocava tempos antigos e um tempo que jamais viveu. Não era sua primeira incursão no meio de tamanha granfinagem, mas ele sabia que não teria um tempo tranqüilo.

Correu para o salão abarrotado de VIPs e seguranças para acompanhar com ansiedade os desdobramentos da Conspiração. Sabia que aquele tiro era de longa distância, era um plano audacioso ao ponto do ridículo e dependeria mais da sorte que Deus reservaria naquela noite que por um método científico, prático, lógico. Mas sabia muito bem que naquele seu mundo, com as coisas que tinha visto em todos aqueles anos, a lógica era uma piada e dois mais dois nunca poderia ser quatro.

Entretanto, no meio do tiroteio e das câmeras de tevê esquadrinhando todos os cantos de São Paulo na noite do mais violento ataque orquestrado por uma facção criminosa da história recente da cidade, as coisas não estavam indo bem. No mapa de batalha, as linhas vermelhas estavam sobrepujando as azuis em todos os pontos-chave originais, e avançavam. Avançavam com uma velocidade assombrosa. Aterrorizante. Pensou que o prédio de luxo, tradicional do centro da cidade, poderia ser sua Alexanderplatz, sua última linha de defesa antes do inexorável fim que aguarda a todos. Começou a pensar no que poderia acontecer se o Turco chegasse até aquele andar e encontrasse o Buffet dos sonhos. Todas as Cabeças Coroadas do Submundo de São Paulo estavam em um único lugar, prontos para serem colhidos como frutas maduras do pé. Pensou se não seria aquele o momento em que ele se jogaria nos braços da morte para seguir a tradição da família – sacrifícios pela causa de igualdade e de um governo justo no inferno cotidiano. Tal como ocorrera com seu mentor.

Naquele instante, no terraço do prédio imponente, longe dos olhos dos seguranças e de qualquer bom-senso, Alfredo sentiu medo. “Ligue para o pessoal do Alto Escalão. Estamos perdendo. Precisamos de ajuda. Mande todo mundo pra cá. Já não há mais condições”, ordenou a seu escudeiro em um canto escuro da cidade, isolado de todo o tormento que assolava a capital paulista.

E a vida, com suas piadas e idiossincrasias, veio como uma punchline de uma piada de salão na volta. “Nós vencemos, Alfredo. Os turcos estão recuando. Tão cedo não teremos problemas com eles”, disse o velho com sotaque italiano e com pouca disposição a se prolongar.

“A primeira lição neste jogo é ser paciente, Alfredo. Acalme-se. Deixe as linhas se definirem”, o seu mentor o ensinou, antes mesmo do tempo do lampião a gás ser um sonho de consumo na paulicéia. Não haveria perdão, não haveria rede de segurança, ninguém ficaria no caminho da bala para salvar seu couro. Desde aquela fatídica noite, ele nunca se sentiu tão sozinho. Sentiu o ódio e o desejo do Italiano em destruir seu último fôlego de vida se materializar no ar, enquanto seu velho amigo na Cidade Universitária pedia uma mera carona para casa. “Acabaste de perder um bispo em sua estratégia, Alfredo”, falou o velho Dario com sua voz lacônica, como se ensinasse uma criança a andar de bicicleta.

E com a solidão dos loucos e dos suicidas, longe de tudo que lhe era familiar e seguro, Alfredo se deixou cair para dentro do mausoléu dos Enforcados. E para dentro de sua própria ruína.

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“Siga com o plano”. O som seco da pólvora e o som chocho dos punhos golpeando o crânio ressoavam na nave da igreja, em plena noite de silêncio, temor e morte. Os óculos, símbolo oficioso de seu caráter pacifista e conciliador, a outrora marca do mediador, voaram da face de Alfredo com o ódio do punho que trabalhava seu recém-feito inimigo como um bate-estacas de construção finca os pilares de um arranha-céu. A cada descida do braço, como um fole que alimenta o braseiro, algo crescia.

A mentira era parte de seu trabalho e de seu meio de vida. Ensinava História em uma faculdade particular, tinha seu grupo de estudos sobre a História dos Derrotados. Conversava com monstros e tentava conciliar, resolver problemas, situações, unir as pontas desunidas de uma sociedade paranóica e tola, que vivia entre a eternidade e o vulgar. Mas, dentro desse mar de papagaiada, ele tentava se agarrar a verdades universais: um norte consciente para que não perdesse no próprio jogo.

O Sol brilha, a grama cresce, os pássaros cantam no raiar do dia e Alfredo era herdeiro de um homem de honra. Um visionário, um verdadeiro conciliador, um mártir de sua causa. Ele, por mais que se esforçasse em se manter aberto e amigável, sabia que não tinha um único grama de talento de seu mentor. Mas ele se esforçava. Talvez se esforçava demais em uma tarefa que ele nunca conseguiria – completar uma Sinfonia Inacabada. Prever, antecipar e continuar tocando a obra, a despeito de seu idealizador já não estar neste mundo há meio século. Era um Salieri com barriga e barba malfeita.

Mas, naquela noite, depois do desespero, das linhas vermelhas avançando, do Deus Ex Machina completamente inesperado onde o rato rugiu e o Assassino do Deserto temeu por sua vida, Alfredo testemunhou as portas da Verdade se abrindo debaixo de uma luz pálida que não era acesa há mais de 50 anos. Não havia mais nada no lugar, não havia norte, não havia mais nada. Ecos de uma conspiração ainda mais antiga que todos os sonhos paranóicos que tivera desde que entrara nesse jogo. Ele se viu em um platô, contemplando o Aconcágua de dúvidas, mentiras, traições e planos.

E os dias felizes ficaram para trás. Não havia motivos para sorrir de maneira falsa. A Cidade de Esmeralda ruíra sob seus pés há 50 anos, e pouco do que estava de pé lembrava a Era de Ouro. Ele viu tudo que lhe era querido ser tomado como um banco que toma o carro dos sonhos de um pobretão em menos de um mês – a namoradinha, o mentor, a fama, a fortuna e o terror que seu nome poderia inspirar quando era mencionado em certos pontos da cidade. E, ao ver tamanha documentação, cartas e mapas, sonhos e estratégias, Alfredo não era mais ele mesmo. Ele era ele, em seu estado natural. O monstro. Não mais o guardião de uma tradição antiga, não mais uma engrenagem de uma sociedade construída para se preservar. Ele era o Filho do Diabo.

E foi nesse estado natural, entre a raiva e a frustração, que Alfredo apertou as mãos de Satanás. E não foi por falta de aviso – talvez avisos demais. Mas ele precisava saber, precisava ter idéia do que poderia estar por trás de tudo, descobrir o Plano-Mestre. Bom, Alfredo está no Plano Mestre agora. Mas não poderia ser revelado ao mundo, não naquele instante, não da maneira que aquele engravatado queria.

Então Alfredo ouviu então a ordem – “acabe com isso!”. Era o sinal. Estava na hora de tomar o caminho sem volta. Sabia das conseqüências para si se Enrico não estivesse de pé ao lado dele no instante que a Cavalaria do Alto Escalão chegasse – não ocorreiram punições administrativas, não ocorreria um mero “sabão” em público. Ele precisava seguir com o plano. Colocou a bala na câmara de seu PT-92, retirou o carregador como um sinal de reverência. Não teve coragem de olhar no instante em que puxava o gatilho, enquanto sentia todo o inferno subir à boca do estômago e, pela primeira vez em muito tempo, sentiu vontade de se explodir em lágrimas e asco. Podia sentir os olhos inquisidores dos santos, dos afrescos, das imagens e de Jesus Cristo no altar, que há muito tempo o havia abandonado, podia mesmo ver os olhos mortos de Giulia o contemplando como a quem vê um desastre com a impotência dos espíritos.

Mas ele precisava engolir tudo o que sentia. O recém-convertido apenas se deu ao trabalho de recolher os restos de seu correligionário. Acendeu duas velas no oratório – uma para a alma daquele que havia partido deste mundo, uma para a própria alma que agora ficava pendurada por um único fio. Fechou as portas da igreja com cuidado, com uma música pop na cabeça que falava sobre alguém que governara o mundo e que sabia que São Pedro jamais diria seu nome.

– O que aconteceu, Alfredo?

– Eles voltaram. Os anarquistas voltaram. Um anarquista matou Enrico.

Hora de voltar ao palco. Hora de voltar a mentir. Precisava seguir com o plano. Ele prometera a Enrico que seguiria o plano. E ele seria seguido à risca. Uma morte, um mártir para a causa. A vida, afinal de contas, é dura.

Livro primeiro – capítulo 1*

Posted: 06/21/2011 by Aurea Gil in Contos, Kathy, Malkaviano, Personagens

Que trata da condição e exercício da inigualável artista circense Cassandra Napolina*
 
Num lugar do interior de São Paulo, de cujo nome não quero lembrar-me, vivia uma menina.*
 
Chamava-se Cassandra Napolina Gonzales.
 
Era franzina, delicada, tinha orelhas de abano, e seus longos cabelos negros desciam até a cintura.
 
Estava prestes a completar 6 anos quando se deu a tragédia: o último vôo fatal de sua mãe, Alana Gonzales, conhecida no mundo circense como “a inacreditável mulher pássaro”.
 
Após o inesperado acidente o pai de Cassandra, Carlos Gonzales, um hábil acrobata e não assim tão hábil trambiqueiro, decidiu que finalmente era o momento de sua filha única ser iniciada no estudo das artes do circo.
 
Era necessário, quase urgente, encontrar substituta à altura para a falecida mulher pássaro, já que essa era a principal atração da desfalcada trupe familiar cujos rendimentos conseguiam mensalmente sustentar todo o pequeno circo Gonzales e acalmar a fúria dos dezenas de agiotas para quem Carlos devia.
 
Se parecia impossível encontrar substituta para a mulher pássaro artista, para o papel de esposa Carlos não pareceu ter dificuldades na troca.
 
Poucos dias após o fatal incidente, o lugar vago no trailer do pai de Cassandra já era ocupado por Mademoiselle Gabrielle, a fantástica contorcionista, que fazia diariamente demonstrações de suas fenomenais habilidades corpóreas em apresentações exclusivas para o acrobata.
 
Enquanto aguardava os intensos ensaios de seu pai com a madrasta, que invariavelmente aconteciam dentro do trailer do dono do circo e a portas fechadas – para que se mantivesse o sigilo dos números – conforme explicava Juan, Cassandra treinava o equilíbrio na corda bamba, incansavelmente.
 
Era sempre observada de perto por Sancho*, seu fiel amigo, um chimpanzé adulto de olhos expressivos que costumava vestir roupas de gente e um chapéu.
 
A altura da corda subia a cada dia, assim com aumentavam também as horas de ensaio de Cassandra, que não encontrava mais tempo para brincadeiras de criança.
 
Um forte ” Andale, andale!!” Acompanhado de palmas vigorosas era o que o pai de Cassandra enérgicamente dizia nos poucos momentos em que estava presente, incentivando-a a fazer o trajeto na corda cada vez mais rápido.
 
Apesar do evidente cansaço dos treinos, enquanto se equilibrava no alto de sua corda, Cassandra transformava seu mundo habitualmente cinza em colorido.
 
Ao se apresentar, imaginava-se bem maquiada e vestida, com os cabelos presos ao alto num coque e, inexplicavelmente, sem as orelhas de abano.
 
A lona velha e remendada transformava-se em um picadeiro luxuoso.
 
O pêlo de Sancho brilhava reluzante, e a platéia geralmente sonolenta e entediada a aplaudia com entusiasmo.
 
Havia música, brilho, luzes, cheiro de pipoca e todos a admiravam.
 
Os cartazes anunciavam o show da “inigualável Cassandra”.
 
O circo era seu mundo mágico, e ela adorava cada vez mais o que fazia.
 
Assim, perdida em suas brincadeiras e delírios, a pobre menina foi perdendo o juízo.
 
Pelo menos era o que dizia seu pai “perdeu lo juízo, la pobrecita”.
 
Sua imaginação foi tomada por tudo o que sonhava – magias, truques, brilhos, números incríveis, aplausos do respeitável público, desafios, amores e disparates inacreditáveis.
 
Foi assim que acudiu-lhe a mais estranha idéia , que jamais ocorrera a outra louca nesse mundo.*
 
Pareceu-lhe conveniente criar seu próprio mundo, seu próprio circo.*
 
E assim foi, pelo menos e a princípio, somente dentro de sua mente.
 
Quando Mademoiselle Gabrielle, a fantástica contorcionista, descobriu que o hábil Carlos andava ensaiando novos números com a adorável Juanita, a ajudante do mágico, e contratou o experiente atirador de facas Jaime para acidentalmente errar seu alvo e acertar o coração adúltero do dono do circo Gonzales.
 
Então, de repente…
 
Plim!
 
Como num passe de mágica, sua ilusão virou realidade, e aos 16 anos, por mérito e direito, a inigualável Cassandra tornou-se a única herdeira e proprietária do Gran Circo Gonzales. E aqui começa outra história.
 
* Adaptações com referências ao livro Dom Quixote de La Mancha
 
(Trecho de background de personagem utilizada em crônica de Vampiro a Máscara)