Archive for the ‘Vampiro’ Category

Palavra de salvação

Posted: 07/11/2011 by Aurea Gil in Contos, Kathy, Personagens, Vampiro

“Deus vos salve”, eu murmurei, ao ver que Sebastião se aproximava. Ele não me respondeu. Os brancos diziam que ele era um negociante. Pra mim não passava de mais um mestiço como eu. Filho da terra, sim, embora estivesse livre agora.

Toda a família dele, se não morreu ou fugiu, com certeza ainda era índio que se arrastava por aí servindo aos brancos. Só porque esse meia bosta agora anda a cavalo e calça sapato de couro de vaca, acha que é melhor do que os outros todos. Coitado.

Uma movimentação no lado de fora me fez olhar pela janela a tempo de ver aquele feiticeiro chegando, meio andando, meio arrastado pelos capangas do dono da terra. Baraúna. O olho dele me dava medo. O olhar era de raiva, de fúria.

Meu pai me ensinou como lidar com esses índios que não eram acostumados a viver que nem gente. Era com desconfiança. Ficou tal qual o animal que era, acocorado num canto, só faltava rosnar. “Pai do céu me proteja”, eu disse, enquanto tentava lembrar da reza do Espírito Santo.

O último a chegar era sempre Dourival. Estava ali um homem bonito que dava gosto. Usava bota, chapéu pardo, lenço de cabeça, roupa de gente importante, tinha aquele olho verde que parecia uma pedra brilhando no meio da cara barbada.

Era um homem direito assim que uma mulher que nem eu devia arrumar pra ver se eu me aquietava logo desse pecado que me rondava. Era um homem desse que eu tinha que arrumar pra ver se ficava longe de uma vez por todas daquele seu Coimbra.

E por falar no diabo, lá vem ele. Credo em cruz, que se aquele homem não era o capeta, estava muito perto disso. E nem índio era, pra se dizer de feiticeiro. Perto dele o tal Baraúna era um santo do altar.

Era ainda mais branco que Dourival, o desgraçado. Nem muito cabelo tinha na cabeça, só em volta, e nem chapéu não usava. Também não tinha aquele olho que parecia de vidro como Dourival.

 Ao contrário, tinha era um olho que saltava de dentro da cara, e que parecia que me comia naquele olhar de gente que te olha que nem quando vê porco assando no ferro.

Gente ele não era, aquilo era um demônio que me atentava, e me fazia fazer coisas que eu não queria, e o que eu queria agora era não viver mais naquele pecado. 

Todos sempre ficavam agoniados ao ver o seu Coimbra. E quem é que se aquieta ao ver o diacho ali, em pessoa? Enquanto os outros falavam dos índios, das terras, dos navios, da vila, das coisas que ele queria pra ele, e que a gente conseguia pra ele sempre, o que eu fazia era rezar. Nem ouvia nada.

O problema é que o cheiro do pecado dele me tirava da reza e me fazia pensar no sangue quente escorrendo do braço dele até a minha boca, e parecia que eu podia matar um daqueles três só pra ser a primeira a morder o diabo.

“Me ajudai, senhor, repara meus pecados, me afasta desse mal”, eu dizia, tentando nem mexer os lábios. E esfregava as mãos trêmulas no meu vestido rústico enquanto olhava aqueles dentes pontudos do tinhoso, e sentia aquele cheiro de coisa ruim.

“Me concede a graça de perseverar no vosso santo  serviço, meu deus, meu santo pai”, eu murmurava, e quando todos os olhos, os do sarnento e os dos outros todos, se viraram pra mim, contra mim, eu gritei.

Gritei que não conseguia mais, que não dava mais conta, que não tinha mais forças, e apontei que o feiticeiro é quem devia estar no meu lugar, servindo ao capeta.

Apontei o Dourival e disse que queria era ir embora com ele. E foi então que o cascudo abriu seus braços pra mim, dizendo, naquele sotaque forte de português, que ia me libertar.

Dizia que ia era tirar aquele peso todo de mim. O peso do pecado. “Venha, minha filha”, ele disse. E eu me deixei amparar naqueles braços malditos, e foi o que ele fez.

Me levou pros braços do meu pai, por quem eu tanto implorava. Eu descobri que ele não era o capeta, não. Descobri que ali, naquela São Paulo de Piratininga, Coimbra era Deus.

(Texto meu baseado em rolagem de Vampiro a Máscara)

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A vida é dura – um teaser.

Posted: 07/06/2011 by El Gordo in André, Contos, Personagens, Vampiro

Alfredo lavou a cara com a água cristalina do lavabo de pedra italiana pouco depois de acordar. Algo que ao mesmo tempo evocava tempos antigos e um tempo que jamais viveu. Não era sua primeira incursão no meio de tamanha granfinagem, mas ele sabia que não teria um tempo tranqüilo.

Correu para o salão abarrotado de VIPs e seguranças para acompanhar com ansiedade os desdobramentos da Conspiração. Sabia que aquele tiro era de longa distância, era um plano audacioso ao ponto do ridículo e dependeria mais da sorte que Deus reservaria naquela noite que por um método científico, prático, lógico. Mas sabia muito bem que naquele seu mundo, com as coisas que tinha visto em todos aqueles anos, a lógica era uma piada e dois mais dois nunca poderia ser quatro.

Entretanto, no meio do tiroteio e das câmeras de tevê esquadrinhando todos os cantos de São Paulo na noite do mais violento ataque orquestrado por uma facção criminosa da história recente da cidade, as coisas não estavam indo bem. No mapa de batalha, as linhas vermelhas estavam sobrepujando as azuis em todos os pontos-chave originais, e avançavam. Avançavam com uma velocidade assombrosa. Aterrorizante. Pensou que o prédio de luxo, tradicional do centro da cidade, poderia ser sua Alexanderplatz, sua última linha de defesa antes do inexorável fim que aguarda a todos. Começou a pensar no que poderia acontecer se o Turco chegasse até aquele andar e encontrasse o Buffet dos sonhos. Todas as Cabeças Coroadas do Submundo de São Paulo estavam em um único lugar, prontos para serem colhidos como frutas maduras do pé. Pensou se não seria aquele o momento em que ele se jogaria nos braços da morte para seguir a tradição da família – sacrifícios pela causa de igualdade e de um governo justo no inferno cotidiano. Tal como ocorrera com seu mentor.

Naquele instante, no terraço do prédio imponente, longe dos olhos dos seguranças e de qualquer bom-senso, Alfredo sentiu medo. “Ligue para o pessoal do Alto Escalão. Estamos perdendo. Precisamos de ajuda. Mande todo mundo pra cá. Já não há mais condições”, ordenou a seu escudeiro em um canto escuro da cidade, isolado de todo o tormento que assolava a capital paulista.

E a vida, com suas piadas e idiossincrasias, veio como uma punchline de uma piada de salão na volta. “Nós vencemos, Alfredo. Os turcos estão recuando. Tão cedo não teremos problemas com eles”, disse o velho com sotaque italiano e com pouca disposição a se prolongar.

“A primeira lição neste jogo é ser paciente, Alfredo. Acalme-se. Deixe as linhas se definirem”, o seu mentor o ensinou, antes mesmo do tempo do lampião a gás ser um sonho de consumo na paulicéia. Não haveria perdão, não haveria rede de segurança, ninguém ficaria no caminho da bala para salvar seu couro. Desde aquela fatídica noite, ele nunca se sentiu tão sozinho. Sentiu o ódio e o desejo do Italiano em destruir seu último fôlego de vida se materializar no ar, enquanto seu velho amigo na Cidade Universitária pedia uma mera carona para casa. “Acabaste de perder um bispo em sua estratégia, Alfredo”, falou o velho Dario com sua voz lacônica, como se ensinasse uma criança a andar de bicicleta.

E com a solidão dos loucos e dos suicidas, longe de tudo que lhe era familiar e seguro, Alfredo se deixou cair para dentro do mausoléu dos Enforcados. E para dentro de sua própria ruína.

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“Siga com o plano”. O som seco da pólvora e o som chocho dos punhos golpeando o crânio ressoavam na nave da igreja, em plena noite de silêncio, temor e morte. Os óculos, símbolo oficioso de seu caráter pacifista e conciliador, a outrora marca do mediador, voaram da face de Alfredo com o ódio do punho que trabalhava seu recém-feito inimigo como um bate-estacas de construção finca os pilares de um arranha-céu. A cada descida do braço, como um fole que alimenta o braseiro, algo crescia.

A mentira era parte de seu trabalho e de seu meio de vida. Ensinava História em uma faculdade particular, tinha seu grupo de estudos sobre a História dos Derrotados. Conversava com monstros e tentava conciliar, resolver problemas, situações, unir as pontas desunidas de uma sociedade paranóica e tola, que vivia entre a eternidade e o vulgar. Mas, dentro desse mar de papagaiada, ele tentava se agarrar a verdades universais: um norte consciente para que não perdesse no próprio jogo.

O Sol brilha, a grama cresce, os pássaros cantam no raiar do dia e Alfredo era herdeiro de um homem de honra. Um visionário, um verdadeiro conciliador, um mártir de sua causa. Ele, por mais que se esforçasse em se manter aberto e amigável, sabia que não tinha um único grama de talento de seu mentor. Mas ele se esforçava. Talvez se esforçava demais em uma tarefa que ele nunca conseguiria – completar uma Sinfonia Inacabada. Prever, antecipar e continuar tocando a obra, a despeito de seu idealizador já não estar neste mundo há meio século. Era um Salieri com barriga e barba malfeita.

Mas, naquela noite, depois do desespero, das linhas vermelhas avançando, do Deus Ex Machina completamente inesperado onde o rato rugiu e o Assassino do Deserto temeu por sua vida, Alfredo testemunhou as portas da Verdade se abrindo debaixo de uma luz pálida que não era acesa há mais de 50 anos. Não havia mais nada no lugar, não havia norte, não havia mais nada. Ecos de uma conspiração ainda mais antiga que todos os sonhos paranóicos que tivera desde que entrara nesse jogo. Ele se viu em um platô, contemplando o Aconcágua de dúvidas, mentiras, traições e planos.

E os dias felizes ficaram para trás. Não havia motivos para sorrir de maneira falsa. A Cidade de Esmeralda ruíra sob seus pés há 50 anos, e pouco do que estava de pé lembrava a Era de Ouro. Ele viu tudo que lhe era querido ser tomado como um banco que toma o carro dos sonhos de um pobretão em menos de um mês – a namoradinha, o mentor, a fama, a fortuna e o terror que seu nome poderia inspirar quando era mencionado em certos pontos da cidade. E, ao ver tamanha documentação, cartas e mapas, sonhos e estratégias, Alfredo não era mais ele mesmo. Ele era ele, em seu estado natural. O monstro. Não mais o guardião de uma tradição antiga, não mais uma engrenagem de uma sociedade construída para se preservar. Ele era o Filho do Diabo.

E foi nesse estado natural, entre a raiva e a frustração, que Alfredo apertou as mãos de Satanás. E não foi por falta de aviso – talvez avisos demais. Mas ele precisava saber, precisava ter idéia do que poderia estar por trás de tudo, descobrir o Plano-Mestre. Bom, Alfredo está no Plano Mestre agora. Mas não poderia ser revelado ao mundo, não naquele instante, não da maneira que aquele engravatado queria.

Então Alfredo ouviu então a ordem – “acabe com isso!”. Era o sinal. Estava na hora de tomar o caminho sem volta. Sabia das conseqüências para si se Enrico não estivesse de pé ao lado dele no instante que a Cavalaria do Alto Escalão chegasse – não ocorreiram punições administrativas, não ocorreria um mero “sabão” em público. Ele precisava seguir com o plano. Colocou a bala na câmara de seu PT-92, retirou o carregador como um sinal de reverência. Não teve coragem de olhar no instante em que puxava o gatilho, enquanto sentia todo o inferno subir à boca do estômago e, pela primeira vez em muito tempo, sentiu vontade de se explodir em lágrimas e asco. Podia sentir os olhos inquisidores dos santos, dos afrescos, das imagens e de Jesus Cristo no altar, que há muito tempo o havia abandonado, podia mesmo ver os olhos mortos de Giulia o contemplando como a quem vê um desastre com a impotência dos espíritos.

Mas ele precisava engolir tudo o que sentia. O recém-convertido apenas se deu ao trabalho de recolher os restos de seu correligionário. Acendeu duas velas no oratório – uma para a alma daquele que havia partido deste mundo, uma para a própria alma que agora ficava pendurada por um único fio. Fechou as portas da igreja com cuidado, com uma música pop na cabeça que falava sobre alguém que governara o mundo e que sabia que São Pedro jamais diria seu nome.

– O que aconteceu, Alfredo?

– Eles voltaram. Os anarquistas voltaram. Um anarquista matou Enrico.

Hora de voltar ao palco. Hora de voltar a mentir. Precisava seguir com o plano. Ele prometera a Enrico que seguiria o plano. E ele seria seguido à risca. Uma morte, um mártir para a causa. A vida, afinal de contas, é dura.

O lobo-guará

Posted: 06/20/2011 by Bruno in Bruno, Contos, Vampiro

Num dia qualquer, há algum tempo atrás…

Peterson vem dirigindo seu velho guincho pela estrada. A vergonha e a culpa lhe consomem por dentro…

“Bugre: Veja bem Peterson, você precisa encontrar o animal dentro de você. Ele está aí, em algum lugar, você só não encontrou ainda…
Peterson: Não sei Bugre, eu estou um pouco confuso. Eu só consigo pensar em cachorros, o tempo todo, mas eu não quero ser um cachorro!
Bugre: É aí que você está se complicando. Você está se negando, não está deixando a sua natureza fluir em você…”

Peterson esbraveja ao volante:
– Mas que bela bosta de animal eu sou, que bela bosta!

Ele não consegue pensar em voltar para a cidade depois de tudo o que aconteceu…

“Cinzas. Tudo o que sobrou de seu senhor foram cinzas. Ele olha desconsolado para o chão. Agachado, ele revira o pó e encontra o pingente que Bugre carregava junto ao peito. Mas o pingente estava quebrado. Sentindo-se tão quebrado quanto o pingente, Peterson passa o cordão em volta do pescoço. O pingente serviria para lembrar o quão frágil um vampiro é. Sem se arriscar. A partir deste dia seria assim a não-vida.
Ele se afasta, enquanto seu peito, que carrega um coração que não bate, transborda de vergonha por ter fugido na hora da batalha. Peterson liga o guincho e parte, sem destino certo…”

Vergonha, culpa, vergonha, culpa, vergonha, culpa, medo, vergonha, culpa, medo, raiva, raiva, raiva, raiva…
A estrada vai ficando vermelha, vermelha, vermelha. A consciência some…
…e volta repentinamente acompanhada do som de um grunhido de dor.
Peterson freia o carro e joga para o acostamento.

Atordoado ele sai do guincho. Ao olhar para a estrada, vê o que parece ser um cachorro, jogado, gritando de dor.

Peterson se aproxima do animal. Agora, mais de perto, ele vê que se trata de um lobo-guará. Animal solitário, que ele só conhecia através de livros.

Não há como salvar o animal. Lágrimas de sangue correm pelo seu rosto, enquanto ele pede desculpa.

Ele se abaixa e dá ao animal o beijo que acalma. O beijo que mata. Enquanto o animal recebe a paz e começa a morrer, Peterson vai morrendo junto…

Ao fim do processo, Peterson toma o animal nos braços e o carrega para dentro do matagal ao lado da estrada. Tenta acomodar a carcaça sem vida de forma confortável, e passa a mão em sua cabeça, para tentar aliviar a dor.

Triste, com dor, sozinho. O lobo-guará era Peterson, e Peterson era o lobo-guará. Ele tira do bolso um canivete suíço e corta um pouco do pêlo do animal para carregar consigo. Este lobo-guará não seria esquecido. Ele viveria em Peterson.

Quando caiu em si, percebeu que estava correndo em quatro patas. E nada mais importava. E por mais pessoas que possam estar à sua volta, ele sempre estará sozinho, correndo…

Dica para Malkavianos

Posted: 05/27/2011 by Luciana in Luciana, Malkaviano, Seriados, Vampiro

Louco, Adj.: Afetado por um alto grau de independência intelectual; inconformado com os padrões de pensamento, fala e ação, devido a um profundo estudo de si mesmo.
– Ambrose Bierce, O Dicionário do Diabo

Recomendo True Blood.  Pra quem não conhece é um seriado criada por Alan Ball, baseada na série de livros The Southern Vampire Mysteries da americana Charlaine Harris.

Sinopse: Numa nova era de evolução científica, os vampiros conseguiram deixar de ser monstros lendários para se tornarem cidadãos comuns. Essa mudança, que aconteceu do dia para a noite, deve-se a cientistas japoneses, que inventaram um sangue sintético (chamado True Blood), fazendo com que os humanos deixassem de ser o seu prato principal. Já os humanos ainda não se sentem totalmente seguros convivendo lado a lado com toda a legião de vampiros que está saindo de seus caixões. Ao redor do mundo, cada um escolheu o seu lado a favor ou contra essa revolução, mas numa pequena cidade de Lousiana, as pessoas ainda estão formando a sua opinião.

Mas o que tem de similar com o RPG Vampiro, a máscara?
Muita coisa, inclusive referências para seus personagens.  A rainha no seriado é a princesa da cidade. O xerife no seriado tem a mesma função do xerife no nosso jogo.  Sem falar que tem Ventrue, Toreador, Brujah e tantos outros personagens para se basear.  Inclusive poderes de dominação, rapidez e presença.
Aguardem os próximos posts.
Hoje irei falar sobre um dos melhores personagens da 3ª temporada.

O Franklin (James Frain)
Simplesmente é uma das melhores referências para um Malkaviano.
O personagem é um apaixonado compulsivo e extremista.  Ele ama tanto a personagem Tara, que a faz de refém e ao mesmo tempo manda flores. Bate nela e chora por ela. Além de tudo isso ciumento!!
Excelente atuação de James, com certeza enriqueceu a série.
Dá uma olhada nesse video e entenderá o que quero dizer.

Gente, o que é esse ser mandando SMS? Hilário!
Mais uma vez recomendo a série. A 4ª temporada está chegando na HBO (selo de qualidade).
Já estou ansiosa, um passarinho me contou que teremos necromancia!
Waiting sucks!

Poster da 4ª temporada

Ah, o Jogo de Interpretação de Papéis. O teatro da vida não tão real. É a hora e a vez onde todo mundo resolve desincorporar-se, deixar de ser aquela pessoa que paga contas, que pega o ônibus, que fuma cigarros nos lugares preestabelecidos por lei para serem malvados, fuderosos, gostosos e maldosos seres da noite sedentos por sangue, volúpia, sexo e poder. Mais ou menos como o Clube da Luta, só que sem aquela coisa toda de troca de fluídos obrigatória que envolve a atracação com roupa (o que, na grande maioria dos casos, não impende uma atracação com ou sem roupa e troca de fluídos depois do evento).

Puta mundo injusto, meo! Nunca me chamaram para uma suruba pós-live!

Mas no mundo dos live-actions, encontros de RPG e demais convenções sociais onde podemos colocar roupa de inverno em pleno verão paulistano, a duas coisas nos habituamos: à regra (sempre observada, quase sempre cumprida) de abstinência alcoólica e sexual (embora em ambos os casos a visão de uma mocinha de corset, um galã com cara de predador sexual, ou de uma garrafa de Eisenbahn nos abre a saliva) e a batalha interna entre estar dentro do personagem e o senso comum de que você tem mais de 22 anos e está representando com a sinceridade e a espontaneidade de quando você interpretou uma árvore na peça sobre laticínios no Pré-Escolar.

Nessas horas, nesse nosso grupo de amigos nerds de improviso controlado, acaba surgindo sempre o mesmo caso inconveniente: o overacting. O Toreador com um pé no almodovarianismo e o outro também, o Ventrue “Sou playboy, filhinho de papai, me afundo nessa bosta até não poder mais”, o Malkaviano de Pantufas (que ainda vai ganhar um estudo na Universidade de Cornell apenas para este caso), o Tremere Chessmaster e o Brujah PunkRockerHardcoreRevoltadoRageAgainstTheMachine. Estes arquétipos, embora válidos e constem dentro das linhas gerais de descrição em todos os livros, são apenas uma caricatura dos personagens em um ambiente vivo como acontece em jogos de verdade.

O risco de fazer um overacting é, em um primeiro instante, você ficar marcado como o jogador canastrão que não leu nada mais que um resumão daqueles que se vendem em banca para concursos, o que te transforma em um maldito jogador casual (e ninguém gosta de malditos casuais numa mesa de longo prazo). Segundo ponto: por você fazer um personagem tão bidimensional e descomplicado, a sua longevidade no jogo pode diminuir drasticamente, uma vez que você vai virar um bucha de canhão porque não dá pra confiar em alguém que possui inimigos diretos e declarados.

Mas não é o fim do mundo. É possível evitar a galhofagem e o overacting que tanto broxam jogadores, mestres e possíveis jogadores a longo prazo. Cara, meu primeiro conselho é: relaxa. Você não é o Nicolas Cage. Só por isso abra as mãos, estenda-as aos céus e agradeça sua sorte. Você não está tendo que provar nada pra ninguém, não está lá ganhando um centavo por sua participação. Em todo o caso: você não está em um grupo amador de teatro (e nada o impede que procure um caso goste de interpretar um papel). Você está lá apenas para responder às respostas do seu personagem. Se alguém pisa no seu pé, te tira do sério, haja como agiria o personagem, pura e simplesmente. Já dizia Freddie Mercury: “Surrender your ego, be free – be free to yourself”.

O segundo conselho fica para os narradores, que se fundamenta em 3 coisas: ambientação, ambientação, e ambientação. Certo – você conseguiu a casa, conseguiu os jogadores, conseguiu uma história até que decente, que geralmente envolve mitos históricos e folclóricos de seu CEP. Agora, meu filho, é a parte mais difícil: faça com que seus jogadores entrem no espírito da coisa (sempre de maneira saudável, nunca canso de frisar. Não queremos processos ou oficiais de Justiça na sua porta, queremos?): coloque uma música adequada ao ambiente e ao momento da história, conte uma história, reúna o povo em uma roda e dê uma de Joel Santana, isso fica a seu critério. Mas, pelo amor de Gary Gygax – COLOQUE SEUS JOGADORES DENTRO DO SEU JOGO!

"Ai uanti de prince vampáiri in the tópi ofi de esté"

De todas as boas experiências em live-action que tive nesses anos nesta indústria vital, sempre respeitei duas coisas: Narradores que se esforçavam para colocar o jogo no clima certo a ponto de nascerem cacoetes e idéias fixas depois das sessões, e jogadores que paravam uma cena, olhavam direto nos olhos e diziam “Role play, mermão. Role play!”. Isso é que dá tesão para continuar o jogo: é a possibilidade de encontrar um bom roteiro e poder crescer com ele: pronto, você já está um passo à frente do Nicolas Cage. Até hoje, graças às divindades do D10, não encontrei um jogo onde o pessoal estivesse interpretando como se fosse num filme do Ed Wood por mais de um live-action e sobrevivesse.

Saiba que, sim, é um costume entre narradores, Mestres de Jogo e alhures darem pontos extras para interpretação em eventos assim. Sinta o personagem, suas ações cinco minutos antes de cada live – como ele acordou, como se vestiu, o que pensava no caminho ao local de reunião. Mas não erre na mão quando resolver incorporar aquele seu personagem atormentado e meio demente e ficar babando no pescoço daquela menina de 19 anos que está jogando seu primeiro live sem ter hora pra voltar. Não confunda boa atuação com stalking ou overacting, caso contrário você corre o risco de ser educadamente convidado a ir fornicar um cachorro do outro lado da cidade da próxima vez que perguntar “quando vai ter live?”.

Ou pior - você pode acabar como esse cara.

Ninguém perde?

Posted: 05/24/2011 by Aurea Gil in Kathy, Vampiro
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Quer fazer amiguinhos? Vai brincar de roda!

Na teoria, quando alguém chega com a célebre pergunta “afinal, que é esse negócio de RPG mesmo?”, rola aquela linda explicação sobre “um jogo onde ninguém ganha, ninguém perde”, “jogo cooperativo”, “trabalha-se em conjunto”, e coisa e tal.

Sabem o que eu acho disso? BA-LE-LA! Vem jogar vampiro, vem!? Vem ver de pertinho o jogo onde ninguém perde e são todos amiguinhos. Duas puxadas de tapete depois você estará considerando retornar ao grupo de tranca da paróquia do bairro, esse sim bastante solidário.

Na verdade, meu caro amiguinho, não precisa sair correndo assustado assim tão rapidamente. Num jogo voltado para o público adulto, com temática que inclui disputas por poder e por status, intrigas sociais e muita, muita guerra de influências, é natural que seu amigo em “off”, que em “on” interpreta o pior de seus inimigos sacanas, não pense duas vezes antes de lhe sabotar sem ao menos retirar o sorriso sarcástico do rosto.

Fazer o que? Não há aquela outra máxima do mundo RPGístico “é tudo um jogo”? Abrace a causa, e corra para se vingar do maldito traidor, ops, do seu amigão, na próxima oportunidade, beibe. Jogo cooperativo é o escambau! 🙂

Imagem daqui

Não posso sorrir, sou uma gótica sem caninos

Já esteve em um live-action de vampiro? Já viu fotos de grupos interagindo em pleno jogo? Me diga então, quais são as características predominantes? Todos sérios, fazendo cara de maus, expressões fechadas, certo? Roupas escuras, muito preto e vermelho. As mulheres bem maquiadas, geralmente usando peças justas, curtas, com muitos decotes e fendas. Os homens com cara de poucos amigos, abusando dos tons escuros, dos coturnos e dos acessórios de couro. Mas quem diabos determinou em algum momento que vampiros são assim?

Vamos começar pela cara de mau. Certo, certo, um jogo de horror pessoal, onde interpretamos monstros ávidos por sangue que caminham a passos largos para longe de sua humanidade. Seres amaldiçoados, com emoções anestesiadas pelos séculos de vida, desconfiados, calejados, que se sentem cercados de inimigos em situações sociais como as representadas nos lives. Oras, é impossível interpretar alguém assim e não permanecer sério! Poxa, será mesmo? Eles não tem momentos felizes? É um erro expressar alegria nesse mundo vampírico?

E as roupas? Certo, estamos no Mundo das Trevas, um cenário alternativo, escuro, sombrio, uma versão mais obscura do nosso mundo real, ambientação definida oficialmente como “punk-gótico”. Mas será que todos os personagens desse mundo caminham sempre numa mesma direção? Ninguém pensa diferente, ninguém é meio do contra, prefere azul, branco, verde água ou, sei lá, rosa bebê ao invés de preto, ou escolhe se vestir com roupas comuns de dia-a-dia ao invés de andar por aí como uma rainha sadomasoquista ou um gótico de butique? Ninguém sorri, tem momentos de satisfação ou de prazer?

É aqui o live?

Há tempos tive uma personagem em um live action de Requiem que escapava completamente desses dois estereótipos, o da roupa e o da cara de poucos amigos. Ela sorria, até demais. Sempre com seu leque em mãos e um acentuado sotaque francês. Ela falava alto, fazia observações muitas vezes inoportunas (na maior parte das vezes de forma proposital, constrangendo seus desafetos). Utilizava o sarcasmo como arma, na verdade.

Usava roupas claras sempre, muitos acessórios, muitas cores, brilhos, o que a destacava na multidão de preto, e, claro, incomodava seus convivas. Certamente, foi uma personagem marcante para mim e para quem jogava comigo. Com o tempo, essa interpretação tornou-se tão forte que mesmo em reuniões do grupo, fora dos live actions, eu acabava atendendo aos pedidos dos colegas de grupo e improvisava o leque para utilizar nas rolagens, pois o acessório se transformou em marca registrada da personagem, assim como os sorrisos e as roupas diferentes.

Somos malkavianos de pantufaaas, êêêêê!!!

Claro que se todo mundo fugir absurdamente do estereótipo, é capaz do live ser confundido com uma reunião do fã clube do Restart, ou algo que o valha. Estereótipos são sim importantes, afinal, é baseado neles que o jogo segue uma linha, que os clãs existem, que as seitas sobrevivem.

Porem, sem exageros, utilizado de forma coerente com background, com objetivos em jogo, e, mais importante de tudo, com o estilo dos narradores e do próprio player, esses toques diferentes e inesperados sempre trazem aspectos muito positivos para o jogo, ajudando a explorar novos ângulos da interação com outros jogadores e provocando reações diferenciadas, além de ser uma ótima forma do personagem ser lembrado, de deixar sua marca no grupo.

Que tal ousar um pouquinho mais ao construir seu próximo personagem?

Imagens: Getty Images